O cepticismo e o irracionalismo de Hume
Hume tem sido frequentemente acusado de cepticismo e de irracionalismo. Qual a razão de ser destas acusações? Em primeiro lugar, o facto de Hume ter mostrado que não existe uma justificação racional para as nossas inferências causais. Muitos filósofos pensam que Hume provou não haver razão para preferir a ciência à superstição. Nenhuma é racionalmente justificável e, por isso, não há diferenças assinaláveis entre as prescrições dos médicos e as mezinhas das bruxas. Em segundo lugar, ter substituído a justificação racional pelo hábito, uma espécie de instinto natural sobre o qual a razão não tem poder. Numa palavra, ter substituído a razão pelos instintos.
No entanto, Hume pensa que existem razões para preferir a ciência à superstição. As teorias da ciência são suportadas pela observação e pela experiência, pela uniformidade da natureza, ao contrário do que acontece com as crenças supersticiosas. Ele não considera, por isso, a sua filosofia uma forma de irracionalismo, mas sim daquilo a que chamamos hoje naturalismo, e não duvida de que estabelecemos relações causais e raciocínios indutivos e de que devemos confiar nas suas conclusões. Mas pensa que a causa para essa confiança não é a razão mas sim a natureza. Ele vê nesta necessidade natural a justificação adequada e suficiente das nossas crenças sobre o mundo. Embora não possamos justificar racionalmente essas crenças, a natureza fez-nos de modo a termos uma propensão para que certas experiências passadas nos levem inevitavelmente a ter certas crenças sobre o futuro. É tudo o que precisamos para confiarmos na verdade destas crenças e para demarcar a ciência da superstição.
Mas, para aqueles a quem a solução naturalista não satisfaz, o resultado último da filosofia de Hume foi ter mostrado que, ao contrário do que acreditamos, não temos conhecimento do mundo, seja no sentido de verdade indubitável seja no sentido de crença racionalmente justificada. Daí que o problema da indução esteja no centro do debate filosófico contemporâneo, em particular, em filosofia da ciência.
Álvaro Nunes, O empirismo de David Hume
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