OLÁ a Todos! Aqui estão alguns materiais para apoiar os vossos trabalhos filosóficos! Esperemos que sejam úteis!
terça-feira, 4 de novembro de 2025
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Texto para resumo Carolina 11A
Um filme que se aproxima significativamente da situação do demónio mau [de Descartes] no que diz respeito à profundidade da dissimulação que apresenta é The Matrix (Andy e Larry Wachowski, 1999). A premissa deste filme é a de que a maior parte da humanidade foi escravizada por uma raça de máquinas inteligentes que usam corpos humanos como fontes de energia. Contudo, aqueles que se encontram neste estado ignoram completamente a sua situação real. Tudo parece normal porque um super-computador os alimenta com uma realidade simulada ('o Matrix'). Apenas alguns rebeldes conseguiram escapar a esta escravização e estão em condições de oferecer resistência às máquinas. Assim, no começo do filme, antes de escapar do Matrix, tudo o que o personagem principal, Neo (Keanu Reeves), experimenta e toma como real é, de facto, uma ilusão gerada por computador. (…)O líder dos rebeldes, Morfeu (Lawrence Fishburne), (…) [que] entra no Matrix para trazer Neo para a causa da resistência, (…) oferece ao nosso herói a oportunidade de 'acordar' da sua ilusão. O enigma que ele coloca é puro Descartes: 'Já tiveste algum sonho, Neo, de que estivesses convencido que era real? E se não conseguisses acordar desse sonho? Como saberias a diferença entre o mundo do sonho e o mundo real?'
(…) em The Matrix, nós, como Neo inicialmente, não temos qualquer ideia de que o mundo em que Neo habita é uma ilusão, e ficamos tão desorientados como ele quando a situação é de repente revelada.
O argumento do demónio de Descartes pode ser facilmente reformulado em termos retirados de The Matrix - pode ou não acontecer que tudo aquilo de que temos experiência, tudo de que até agora tivémos experiência, mesmo aquilo que tomamos como verdades lógicas básicas, ser uma fabricação gerada por um supercomputador? E o efeito desta questão é igualmente o de colocar em dúvida, de um modo extremamente radical, o que a nossa experiência nos diz acerca do mundo.
Christopher Falzon,
Philosophy Goes To The Movies. An Introduction To Philosophy. London and New York, 2002. Trad. Carlos Marques.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
Texto para resumo Tomás 11A
O Cogito
Alguns vêem no Cogito não a conclusão de um argumento, mas uma espécie de descoberta epistémica: uma verdade indubitável na qual ele tropeça. Outros preocupam-se em saber se Descartes pode ter direito ao ‘Eu’ presente no Cogito. Não terá ele de direito apenas a qualquer coisa de menos, a dizer somente que o pensamento ocorre e não que quem o pensa é o próprio Descartes?
O círculo cartesiano
No entanto, Descartes tenta ir para a frente, olhando para novas verdades dentro da sua mente. Pensa um pouco acerca da natureza da dúvida e conclui que a dúvida é uma forma de imperfeição, em comparação com o conhecimento. A reflexão sobre a própria ideia de perfeição condu-lo a uma das várias provas da existência de Deus. Dada a natureza das suas várias dúvidas, Descartes sabe que não é um ser perfeito. Não obstante, tem a ideia de perfeição e essa ideia não lhe pode ter vindo de si mesmo ou de qualquer ser imperfeito. Pode apenas vir de um ser perfeito, nomeadamente, de Deus. Esta linha de pensamento conduz a uma versão do argumento ontológico de Anselmo. A ideia que Descartes tem de Deus é a de um ser com todas as perfeições. A existência é uma forma de perfeição; portanto, Deus tem de existir. Pensar em Deus como não existindo é como pensar num triângulo sem três lados. Assim como possuir três lados está no conceito de triangularidade, existência está no conceito de Deus. Se compreendemos bem a ideia de Deus, temos de aceitar que Deus existe.
O engano, nota Descartes, é uma forma de imperfeição e, por isso, conclui que Deus não pode ser enganador. Logo, podemos confiar nas nossas percepções claras e distintas; não somos sistematicamente enganados e a verdade tem de estar ao alcance das nossas capacidades. Reconstruir um sistema de crenças enraízado na percepção clara e distinta é a tarefa [seguinte].
Muitos notaram nesta linha de argumento um círculo demasiado fechado. Chegamos ao conhecimento de que Deus existe e não é enganador apenas porque aceitámos uma série de percepções claras e distintas. Sabemos que as nossas percepções claras e distintas são fiáveis porque Deus existe e não é enganador. Mas não depende a nossa fé nas percepções claras e distintas da prova de que Deus existe e não pressupõe essa prova a veracidade das nossas percepções claras e distintas?
O problema (…) é o de que o conhecimento parece ser uma coisa frágil. Descartes tem certamente sucesso na parte negativa do seu projecto, arrasando os fundamentos do conhecimento com os argumentos cépticos (…). No entanto, o seu esforço para erguer tudo a partir do nada constitui uma espécie de falhanço. Mas o seu objectivo principal, o de mostrar que uma compreensão científica do mundo é possível é algo que nós, modernos, tomamos como adquirido demasiado facilmente.
James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books. London & New York: Continuum, 2006.
Trad. Carlos Marques.
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Texto para resumo/análise Stela 11A
O 'método da dúvida' de Descartes implica pôr de lado qualquer crença ou
conhecimento que admitam a mais pequena dúvida, por mais improvável ou
absurda que essa dúvida possa ser, no intuito de ver se resta alguma
coisa. Se restar alguma coisa é precisamente porque é invulnerável à
dúvida: é certo. Uma vez que o objectivo de Descartes nas Meditações
é o de descobrir o que pode ser conhecido com certeza, o método da
dúvida é crucial, pois constitui o caminho para o seu objectivo. A
tentativa de considerar cada uma das suas crenças ou pretensões de
conhecimento e submetê-las a escrutínio seria uma tarefa impossivelmente
longa, de modo que Descartes teve necessidade de uma estratégia geral
para pôr de lado todo o corpo de crenças dubitáveis. Procurou alcançá-la
utilizando argumentos cépticos.
É preciso notar que o uso de argumentos cépticos por parte de Descartes
não faz dele um céptico. Longe disso. Ele usa-os meramente como um
instrumento heurístico para mostrar que nós possuímos efectivamente
conhecimento. Ele é, portanto, um 'céptico metódico' e não um 'céptico
problemático', entendo-se por esta última expressão alguém que pensa que
os problemas colocados pelos cépticos são sérios e colocam uma genuína
ameaça à nossa ambição de adquirir conhecimento. Acontece que, desde o
tempo de Descartes, muitos filósofos pensaram que ele não produziu uma
resposta adequada às dúvidas cépticas que ele próprio levantou e que,
por conseguinte, o cepticismo é deveras um problema. O próprio Descartes
não pensava de todo assim.
As considerações cépticas que Descartes usou (…) merecem aqui
referência. A primeira delas é a de recordar que os sentidos por vezes
nos conduzem no caminho do erro. Equívocos perceptivos, ilusões e
alucinações podem levar, e ocasionalmente levam, a crenças falsas. Isto
pode fazer com que não depositemos confiança no que pensamos conhecer
através da experiência dos sentidos, ou, no mínimo, que sejamos
cautelosos antes de confiarmos nela como fonte de verdade. Não obstante,
diz Descartes, haverá muita coisa em que eu acredito com base na minha
experiência - tal como, por exemplo, que tenho mãos e que estou a
segurar um pedaço de papel com elas, que estou sentado numa poltrona
defronte de uma lareira, etc. e que duvidar disto seria uma loucura,
mesmo dada a falta de fiabilidade dos sentidos. Mas, apesar disso, diz
Descartes, continuaria a haver muita coisa em que eu acreditaria com
base na minha experiência actual - como, por exemplo, que tenho mãos e
que estou a segurar com elas uma folha de papel, que estou sentado numa
poltrona em frente da lareira, e assim por diante, coisas das quais
seria uma loucura duvidar, não obstante a frequente falta de fiabilidade
dos sentidos.
Mas será mesmo loucura duvidar destas coisas? Não, diz Descartes - e
aqui ele vem com o seu segundo argumento - porque muitas vezes sonho
quando durmo e se estou agora a sonhar que estou sentado em frente à
lareira segurando um pedaço de papel, o pensamento de que assim estou é
falso. Para estar certo de assim estar teria de poder excluir a
possibilidade de estar meramente a sonhar com isso. Como pode isso ser
feito? Parece difícil, senão impossível."
A. C. Grayling. Descartes (London: Pocket Books, 2005), pp. 281-4. Trad. Carlos Marques.
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Texto para resumo Sofia 11A
O trabalho mais conhecido de Descartes, o Discurso do Método – o seu título completo é Discurso do Método Para Conduzir Adequadamente a Razão e Procurar a Verdade nas Ciências – está escrito num estilo atraente e claro. Pode parecer que aquilo que ele escreveu é mais simples e mais óbvio do que é na realidade, por isso temos de considerar aquilo que ele escreveu de modo cuidadoso. Eis uma passagem da quarta parte do Discurso do Método, publicado em 1637, na qual ele define de modo muito claro a sua perspectiva acerca da natureza do seu próprio eu (self):
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
Texto para resumo Rebeca 11A
Os argumentos dos céticos
"O ceticismo, na sua versão mais extrema, é a ideia de que o conhecimento não é possível. Os céticos podem apresentar o seguinte argumento a favor da sua posição:
Se S sabe que P, então não é possível que S esteja enganado acerca de P.
É possível que S esteja enganado acerca de P.
Portanto, S não sabe que P.
Este argumento é um modus tollens e tem, por isso, forma válida. Se as premissas forem verdadeiras, o argumento é sólido e a conclusão verdadeira. A primeira premissa é meramente a expressão da condição que uma proposição tem de estar justificada de modo a garantir a sua verdade para que possa ser conhecimento. Admitamos, por isso, que é verdadeira. E a segunda? Como prova o cético esta premissa? É possível defendê-la apelando, por exemplo, aos erros e ilusões dos sentidos ou às limitações da memória e da razão. Mas também é possível defendê-la com um argumento mais geral que vise mostrar que nunca podemos justificar as nossas crenças e, portanto, que é sempre possível que estejamos enganados acerca delas.
Para vermos como, pensemos numa qualquer afirmação de cuja verdade julguemos estar absolutamente certos, como, por exemplo, que “A Lua é o único satélite natural da Terra”, ou que “Portugal situa-se na Europa”. A questão crucial é esta: que justificação temos para estarmos certos da sua verdade? Temos de ter uma justificação, claro. Caso contrário essas crenças não constituem conhecimento. Podemos justificar as nossas crenças dizendo, por exemplo, que as aprendemos na escola com os nossos professores de Geografia ou de Ciências da Natureza, que, dada a sua formação, são especialistas no assunto. O que fizemos, deste modo, foi justificar uma crença com outra crença. Mas isto, como é óbvio, levanta uma outra questão: que justificação temos para esta nova crença? Esta crença está, afinal de contas, numa posição similar à primeira. Se essa precisa de uma justificação, porque sem ela não constitui conhecimento, o mesmo se passa com esta. E, evidentemente, se esta não constitui conhecimento, também não pode justificar a primeira. Uma forma de justificar esta segunda crença é, claro, recorrer a uma outra da qual ela possa derivar. É fácil ver, no entanto, que o mesmo problema se colocará em relação a essa nova crença. Também ela precisará de uma justificação. Cada afirmação precisa de uma justificação e a justificação de uma nova justificação, numa regressão sem fim. Desse modo, parece, nem a primeira nem qualquer das outras crenças está justificada.
Há alguma forma de evitar esta consequência? Uma possibilidade é parar numa dada crença e não recuar mais na cadeia das justificações, deixando essa crença sem qualquer justificação. A outra é recuar nas nossas justificações até, eventualmente, voltarmos a uma crença que já usámos como justificação, raciocinando em círculo. Por que razão devemos acreditar no professor de Geografia ou de Ciências da Natureza? Porque o que ele diz está de acordo com o manual da disciplina. E por que devemos acreditar nesse manual? Porque foi escrito por especialistas. E como sabemos que são especialistas? Porque se não o fossem, não escreveriam manuais.
Estas três possibilidades em conjunto constituem o chamado trilema de Agripa, do nome do cético grego do século I a quem a tradição atribui a sua formulação. De acordo com este trilema, quando pretendemos justificar uma crença por intermédio de outras crenças estão disponíveis apenas três alternativas:
- Remontar infinitamente na cadeia de justificações;
- Raciocinar em círculo;
- Parar numa crença não suportada.
Nenhuma destas três possibilidades, afirmam os céticos, é melhor que a outra. Parar arbitrariamente na cadeia de justificações e raciocinar em círculo não é uma forma mais apropriada de justificar as nossas crenças do que regredir ao infinito. E como não existe outra alternativa, eles concluem que não é possível justificar nenhuma das nossas crenças e que, portanto, o conhecimento não existe."
Álvaro Nunes, texto retirado de https://criticanarede.com/anunesoproblemadoceticismo.html
segunda-feira, 6 de outubro de 2025
Texto para resumo Lourenço 11A
Justificação
Podemos distinguir dois tipos de crenças: a mediata e a não mediata. Crenças mediatas são aquelas que adquirimos por intermédio de alguma estratégia que começa nas crenças que já possuímos. A inferência é uma estratégia (se bem que não a única); nós inferimos que vai chover a partir das crenças de que estamos a meio da manhã e que o céu está a escurecer. As crenças mediatas levantam a questão de saber se temos direito à estratégia que adotámos — se é uma estratégia que fazemos bem em usar. As crenças não mediatas são as que adotamos sem que, para as termos, seja necessário partirmos de outras crenças que já temos; e suscitam problemas diferentes, que dizem respeito à fonte do nosso direito em acreditar. Eu abro os olhos e, em razão do que vejo, acredito imediatamente que há um livro à minha frente. Se estou a agir bem ao adotar esta crença, ela justifica-se (ou tenho uma justificação para a adotar). Esta atenção dada à justificação é um modo de expressar a ideia de que a epistemologia é normativa. Então o que faz, neste caso, uma crença ser justificada?
Há várias respostas. Uma é a resposta fiabilista: a crença justifica-se porque é o resultado de um processo fiável. Outra é a resposta coerentista: a crença justifica-se porque o meu mundo é mais coerente com ela do que seria sem ela. Uma terceira é a alegação fundacionalista clássica, que entende que a crença não é de fato não-mediata, mas inferida de uma crença sobre como as coisas me aparecem neste preciso momento. Se esta última for verdadeira, somos lançados de novo em duas questões. A primeira consiste em saber se e como a crença sobre como as coisas me parecem neste preciso momento se justifica. A segunda questão reside em saber se a inferência extraída da primeira crença se justifica. Nós poderíamos perguntar, então, que princípio de inferência está a ser usado. Suponha-se que é este: se as coisas me aparecem de determinada maneira, são provavelmente dessa maneira. O que torna isto suficiente para nos levar a supor que agimos bem ao usar este princípio?
Jonathan Dancy, Problemas da epistemologia
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Texto para resumo Juliana ou Laura 11A
Retire um livro retangular da sua estante e olhe para a capa. Qual é a cor predominante, e quantos lados tem? Ao responder a estas questões, o leitor fica a saber duas coisas acerca deste livro, e esses dois factos mostram uma importante distinção entre duas maneiras que temos de adquirir conhecimento.
Para ficarmos a saber a cor do livro temos que observá-lo (ou pedir a alguém que o faça por nós). A justificação para a sua crença acerca da sua cor é fornecida pela experiência (nossa ou de outrem). Mas não precisamos de olhar para um livro retangular para sabermos quantos lados tem. Sabemos que os retângulos têm quatro lados pelo simples facto de pensarmos o que é um retângulo. Adquirimos este conhecimento usando apenas os nossas poderes de raciocínio; não temos de considerar a informação dada pelos nossos sentidos. O conhecimento que é justificado pela experiência é denominado conhecimento "a posteriori" ou conhecimento empírico. O conhecimento em que a experiência não tem um papel justificatório é denominado conhecimento "a priori".
Dan O'Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento
domingo, 28 de setembro de 2025
Texto para resumo Inês Nascimento 11A
Ver mais aqui
Jonathan Dancy (1990), Epistemologia Contemporânea, Ed.70, Lx
sábado, 20 de setembro de 2025
Texto para análise/resumo André11A
Antes de discutirmos se temos ou não conhecimento, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Podemos falar de conhecimento em três sentidos diferentes, mas apenas um nos vai interessar.
Considerem-se as seguintes afirmações acerca de um sujeito, ao qual chamarei S:
Elliott Sober
Exercícios:
Distinga os tipos de conhecimento expressos nas seguintes proposições:
1. Eu conheço o George Michael.
2. Sei andar de bicicleta.
3. Sei que a massa tem 10m de cozedura.
4. Sei que Montreal fica no Canadá.
5. Conheço a música de Amália Rodrigues.
quinta-feira, 29 de maio de 2025
Texto para resumo Matias 11C
Críticas: Terá Leibniz razão?
A primeira dificuldade da posição de Leibniz é que a sua resposta
ao problema lógico do mal limita-se a explicar genericamente, mas não em
particular, como os males são compatíveis com a divindade teísta. Considere-se
um caso particular de sofrimento: uma criança de cinco anos, com uma doença
grave e incurável, morre, depois de dois anos de sofrimento intenso. Não só
sofreu ela, como sofreram os pais e familiares da criança, assim como os seus
amigos; além disso, foram gastos recursos imensos que poderiam ter sido usados
para fazer coisas criativas, como pintar quadros, praticar desportos ou
escrever sonatas. Leibniz não nos diz em pormenor qual é o bem maior do qual
todo este sofrimento é uma componente fundamental. Claro que podemos imaginar
alguns desses bens: o estoicismo da própria criança, a abnegação dos pais e
familiares, o profissionalismo e empatia profunda de médicos e enfermeiros.
Contudo, é pura e simplesmente falso que, do nosso ponto de vista, estes bens
superem o mal daquele sofrimento — basta pensar que nenhum progenitor que não
seja perverso provocaria aquela doença no seu filho só porque daí resultam
alguns bens.
Esta dificuldade, porém, tem uma resposta óbvia da parte de
Leibniz. Claro que não sabemos em pormenor quais são os bens maiores que fazem
parte dos males que nos parecem gratuitos, diria ele; não o sabemos porque
somos limitados. Porém, dado que se prova facilmente que a divindade teísta é
logicamente incompatível com males gratuitos, levar a sério a existência dessa
divindade obriga a levar a sério a ideia de que não há realmente males
gratuitos. Esta ideia tem de ser levada a sério, por mais que isso nos pareça
estranho e por mais que sejamos incapazes de explicar em pormenor que bens são
esses que são constituídos por males aparentemente gratuitos. Tem de ser levada
a sério porque não há outra maneira de tornar a divindade teísta compatível com
o mal.
A primeira dificuldade recebe uma resposta óbvia, e perfeitamente
razoável, mas acaba por levantar uma dificuldade muitíssimo mais importante e
aparentemente fatal.
Muito humildemente, Leibniz considera que somos demasiado
limitados para saber em pormenor quais são os bens que superam e tornam
necessários os males evidentes. Porém, se somos limitados para saber isso, também
somos limitados para saber se Deus existe ou não. É incoerente, ou pelo menos
arbitrário, aceitar que não há a possibilidade de erro quando consideramos que
sabemos que Deus existe, mas que somos demasiado limitados para saber quais são
os bens que dão sentido aos males e os anulam. Ou somos demasiado limitados nos
dois casos, ou em nenhum, porque é tão difícil saber se Deus existe, como
difícil é saber quais são os bens que superam e anulam os males evidentes, caso
Deus exista.
Em suma, a resposta de Leibniz ao problema do mal parece
epistemicamente incoerente, ou pelo menos arbitrária.
Desidério
Murcho in O estado da Arte
Resumo de texto Laura 11C
Leibniz (na Teodiceia) encarregou-se de
defender um Criador acusado de crimes sem paralelo. A sua defesa reside em dois
pontos. O primeiro é que o acusado não podia ter agido de outra forma. Como
qualquer outro agente, estava limitado às possibilidades que tinha à Sua
disposição. O outro ponto invoca o argumento de todas as ações do Criador
acontecerem para o melhor, de facto. Uma parte da defesa é uma investigação às
causas das ações do acusado, enquanto a outra tem a ver com a verdadeira
natureza das suas consequências no mundo. É aqui que as teses de Leibniz
parecem não só anteriores à experiência, mas nitidamente imunes a ela. Para
esse efeito, deixa bem claro que qualquer facto, por horrível que seja, é
compatível com a tese deste mundo ser o melhor dos mundos possíveis.
A afirmação de Leibniz não é uma teoria sobre a bondade deste mundo; diz-nos
simplesmente que nenhum outro mundo teria sido melhor. Aqueles que tentaram
contradizê-lo terão como resposta que não sabem o suficiente para o fazer, o
que será certamente verdade. (…)
A defesa da justiça divina feita por Leibniz depende da divisão de
toda a nossa aflição em mal metafísico, natural e moral. Será esta classificação,
associada à hipótese de haver uma relação causal entre aqueles males, que nos
parecerá violentamente necessitada de defesa. Para Leibniz, o mal metafísico é
uma degeneração inerente ao limite da(s) substância(s) de que o mundo é feito.
O mal natural é a dor e o sofrimento que sentimos nele. O mal moral é o crime
pelo qual o mar natural é a punição inevitável. A suposição de o mal moral e
natural terem uma relação de causa efeito nunca foi sujeita por Leibniz a uma
pesquisa minuciosa. (…)
Há muito tempo, a vida era como devia ser. A terra era um jardim
onde tudo era bom. A fome era saciada sem esforço; as crianças nasciam sem dor.
Não conhecíamos morte, nem vergonha, nem ruína. Se tivéssemos de conceber um
mundo, não o faríamos assim?
Se as coisas deviam ser desta maneira, alguma coisa deve explicar
como elas são. A ideia de que o problema foi causado pelos pecados dos nossos
antepassados não depende do que eles fizeram. Lamentarmos que provar o tipo
errado de fruta tenha sido suficiente para uma sentença de morte pender sobre a
cabeça de todos os descendentes, é falhar a questão filosófica essencial, e as
tentativas cristãs de fazer aquela ação parecer pior do que foi, são vãs. Uma
coisa trivial parece a explicação mais apropriada. O que conta, em primeiro
lugar, não é a justiça da relação entre o que eles fizeram e o que sofreram,
mas se deve haver alguma relação. Porque acontecem as coisas más? Porque se
fizeram as coisas más? Mais vale ter alguma explicação causal do que permanecer
no escuro. Relacionar o pecado com o sofrimento é separar os males do mundo em
males morais e naturais, e criar desse modo um contexto para perceber as
atribulações humanas.
Susan
Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, Lx, 2005, p.37 e 38
domingo, 25 de maio de 2025
Texto para resumo Rafael 11C
Pascal, Pensamentos
Examinemos, pois, esse ponto, e digamos: Deus é, ou não é. Mas, para que lado penderemos? A razão nada pode determinar ai. Há um caos infinito que nos separa. Na extremidade dessa distância infinita, joga-se cara ou coroa. Que apostareis? Pela razão, não podeis fazer nem uma nem outra coisa; pela razão, não podeis defender nem uma nem outra coisa.
Não acuseis, pois, de falsidade os que fizeram uma escolha, pois nada sabeis disso. "Não: mas, eu os acusarei de terem feito, não essa escolha, mas uma escolha; porque, embora o que prefere coroa e o outro estejam igualmente em falta, ambos estão em falta: o justo é não apostar".
Sim, mas é preciso apostar: isso não é voluntário; sois obrigados a isso; (e apostar que Deus é, é apostar que ele não é). Que tomareis, pois? Vejamos, já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa: tendes duas coisas que perder, o verdadeiro e o bem, e duas coisas que empenhar, vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem duas coisas que evitar, o erro e a miséria. Vossa razão não é mais atingida, desde que é preciso necessariamente escolher, escolhendo um dentre os dois. Eis um ponto liquidado; mas, vossa beatitude?
Pesemos o ganho e a perda, preferindo coroa, que é Deus. Estimemos as duas hipóteses: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, nada perdereis. Apostai, pois, que ele é, sem hesitar. Isso é admirável: sim, é preciso apostar, mas, talvez eu aposte demais.
Vejamos. Uma vez que é tal a incerteza do ganho e da perda, se só tivésseis que apostar duas vidas por uma, ainda poderíeis apostar. Mas, se devessem ser ganhas três, seria preciso jogar (desde que tendes necessidade de jogar) e seríeis imprudente quando, forçado a jogar, não arriscásseis vossa vida para ganhar três num jogo em que é tamanha a incerteza da perda e do ganho. Há, porém, uma eternidade de vida e de felicidade; e, assim sendo, quando houvesse uma infinidade de probabilidades, das quais somente uma fosse por vós, ainda teríeis razão em apostar um para ter dois, e agiríeis mal, quando obrigado a jogar, se recusásseis jogar uma vida contra três num jogo em que, numa infinidade de probabilidades, há uma por vós, havendo uma infinidade de vida infinitamente feliz que ganhar. Mas, há aqui uma infinidade de vida infinitamente feliz que ganhar, uma probabilidade de ganho contra uma porção finita de probabilidades de perda, e o que jogais é finito. Jogo é jogo: sempre onde há o infinito e onde não há infinidade de probabilidades de perda contra a de ganho, não há que hesitar, é preciso dar tudo; e, assim, quando se é forçado a jogar, é preciso renunciar à razão, para conservar a vida e não arriscá-la pelo ganho infinito tão prestes a chegar quanto a perda do nada.
quinta-feira, 22 de maio de 2025
Matriz 4º teste 11º C – 30 maio 25
Este elemento de avaliação é composto por DOIS TESTES, cada um é avaliado de 0 a 20 valores. Cada teste avalia competências diferentes:
O 1º Teste avalia a competência do domínio dos conceitos - Conceptualização - que vale 30% na avaliação final.
O 2º Teste destina-se a avaliar as competências de Problematização e Argumentação que valem 45% na avaliação final.
Estrutura e cotações:
1º Teste – Conceptualização - Total – 200 Pontos – Grupo I -10 questões de escolha múltipla (10x15 pontos=150 pontos); Grupo II - 2 questões de definição de conceito (2x25 pontos=50 pontos)
2º Teste – Problematização e Argumentação - Total -200 Pontos - Grupo I – Duas questões de argumentação (25 + 25); Grupo II - Três questões de problematização e argumentação (25 + 40 + 25); Grupo III - Uma questão de análise de texto e uma questão de construção argumentativa ( 30+ 30);
Conteúdos/Competências:
Filosofia da Arte e filosofia da religião
Filosofia da arte
Formular o problema da definição de arte, justificando a sua importância filosófica.
Enunciar as teorias essencialistas e não essencialistas.
Distinguir teorias essencialistas de teorias não essencialistas.
Clarificar os conceitos, teses e argumentos das cinco teorias da arte: representacionista, expressivista, formalista, institucional e histórico-intencional.
Analisar criticamente as 5 teorias de definição de arte, apresentando e justificando as respetivas objeções e contra exemplos.
Filosofia da Religião
Formular o problema da existência de Deus, justificando a sua importância filosófica
Explicitar o conceito teísta de Deus.
Enunciar os argumentos ontológico (Anselmo), cosmológico e teleológico (Aquino) e teleológico (W.Palley)
Compreender os argumentos ontológico (Anselmo), cosmológico e teleológico (Aquino), e teleológico (W.Palley)
Analisar criticamente os argumentos ontológico, cosmológico e teleológico, enunciando e justificando as respetivas objeções.
Definir “Fideísmo”.
Apresentar “ A aposta de Pascal” como aposta fideísta.
Distinguir o fideísmo radical de Kierkegaard do fideísmo moderado de Pascal.
Colocar objeções ao fideísmo.
Texto para resumo Sofia 11C
Consideremos
este ponto e digamos o seguinte: “Ou Deus existe ou não existe.” Mas qual das
alternativas devemos escolher? A razão não pode determinar nada: existe um
infinito caos que nos divide. No ponto extremo desta distância infinita, uma
moeda está sendo girada e terminará por cair como cara ou coroa. Em que você
aposta?
Blaise Pascal, Pensamentos (edição
póstuma, 1844)
De acordo com Pascal, de
uma forma ou de outra, todos nós jogamos dados com Deus, mesmo que ele não
jogue dados com o Universo.
Pascal admitiu que é
impossível “provar” que Deus existe – de facto, afirmou ele, a razão humana é
incapaz de provar qualquer coisa com certeza. O que levaria a pensar que Pascal
era agnóstico, mas não é verdade. Afinal, para ele, a principal pergunta
residia no facto de ser conveniente a alguém acreditar na existência de Deus, e
a sua resposta era que seriamos tolos se não acreditássemos. Isso faz de Pascal
um teísta, pois tentou mostrar matematicamente que seria um péssimo negócio não
acreditar em Deus.
A matemática que Pascal
empregou trabalhava no campo das Probabilidades, que ele ajudou a inventar (esperava
convencer especialmente os seus amigos aristocráticos, que eram jogadores
fanáticos). Bom, no modo de ver de Pascal, a crença ou a descrença que você possa
ter em Deus implica uma aposta.
Ora, se Deus existe e a
“Sagrada Escritura” são verdadeiros, a nossa crença vai dar-nos (em tese)
infinita felicidade após a morte.
Se Deus não existe, tudo
o que teríamos a perder acreditando em Deus seriam os prazeres finitos de uma
vida finita. Mesmo porque, se acharmos que as chances da existência de Deus são
próximas de zero – Pascal sugere que elas estão perto de 50 % – a única coisa
racional que podemos fazer é jogar o jogo. E como qualquer percentagem finita
do infinito tende a ser infinita também, o raciocínio mediante este conceito
mostra que devemos acreditar em Deus.
Indo pelo outro lado da
moeda, se nos recusarmos a acreditar em Deus e estivermos errados, seremos condenados
às penas infernais, pois seremos pecadores. E tomando por base que as
probabilidades que isso aconteça são enormes, não restaria nada mais do que
seguir o glorioso Deus e viver feliz para sempre.
É claro que poderíamos
ainda resistir à razão, mas isso só aconteceria se permitíssemos que as nossas paixões sufocassem o que temos de
melhor. De acordo com o nosso amigo Pascal, os desejos podem ser controlados se
procedermos como se acreditássemos em Deus e participássemos de bons rituais
cristãos. E se, nos habituarmos a isso, terminamos por descobrir que, largando
os hábitos pouco saudáveis, ficaríamos até mais felizes do que antes e isso, na
visão de Pascal, é o verdadeiro benefício da aposta. Interessante?
André Carvalho texto retirado daqui













