O Problema da Demarcação
"O problema da demarcação consiste em distinguir a ciência das
disciplinas não científicas que também pretendem fazer afirmações
verdadeiras sobre o mundo. Os filósofos da ciência foram propondo vários
critérios, incluindo o de que a ciência, diferentemente da não-ciência,
1) é empírica, 2) procura certezas, 3) procede utilizando um método
científico, 4) descreve o mundo observável, não um mundo não observável e
5) é cumulativa e progride.
Os filósofos da ciência apresentam-nos pontos de vista
discordantes acerca destes critérios. Alguns rejeitam completamente um
ou mais deles. Por exemplo, enquanto alguns aceitam a ideia de que a
ciência é empírica, os racionalistas rejeitam-na, pelo menos no que toca
aos princípios fundamentais acerca do espaço, da matéria ou do
movimento. Surgem divergências até mesmo entre os empiristas; por
exemplo, entre aqueles que advogam que os princípios científicos devem
ser verificáveis e aqueles que negam esta possibilidade, exigindo apenas
a sua falsificabilidade.
Algumas versões destes cinco critérios — considerados como metas a atingir — poderão ser defensáveis.
1. “Em que consiste o problema e quando se coloca?”
A expressão “problema da demarcação” foi introduzida por Popper
para se referir “ao problema de se encontrar um critério que nos
permitisse distinguir as ciências empíricas, por um lado, da matemática e
da lógica, entendidos como sistemas metafísicos, por outro” ([1934]
1959: 34). Apesar de Popper se referir à matemática e à lógica, outros
autores preocupam-se em distinguir a ciência da metafísica e da
pseudociência.
Alguns filósofos, incluindo Popper, colocam o problema movidos
por um desejo intelectual de clarificar esta distinção. Os positivistas
lógicos tinham também o objectivo de deitar por terra as disciplinas não
científicas, tais como a metafísica e a teologia, as quais parecem
descrever o mundo físico mas que, por serem inverificáveis, são (alegam
os positivistas lógicos) desprovidas de sentido. Outros têm objectivos
mais práticos. Num país como os EUA, que oficialmente procura separar a
igreja do estado, a religião não deve ser ensinada nas escolas públicas,
mas a ciência pode sê-lo. Então, a questão prática passa a ser o que
devemos considerar ciência (por exemplo, dizendo se o nome “ciência
criacionista” está bem empregue).
2. “A ciência é empírica”
A metafísica, a filosofia e a teologia não o são. O significado
disto, todavia, pode variar conforme os pontos de vista. Segundo uma
concepção habitual, a ciência é formada por proposições (tais como a lei
da conservação da energia), que ou são directamente observáveis através
da observação sensorial, ou podem ser inferidas a partir de observações
deste tipo por meio de um raciocínio indutivo (que parte de alguns
casos observados para uma conclusão sobre todos os membros de uma mesma
classe), ou delas derivadas de forma dedutiva. Por contraste, as
proposições metafísicas (por exemplo, “os universais de Platão existem”)
não conseguem satisfazer estes critérios. Newton, que defendia esta
concepção empirista, dizia ter derivado as suas três leis do movimento e
a lei da gravidade a partir de fenómenos observados, utilizando a
indução e a dedução. Muitos empiristas defendiam pontos de vista
semelhantes, incluindo J. S. Mill e os positivistas lógicos. Uma
concepção empirista significativamente diferente é aquela que Popper
abraça. Este, de acordo com Hume, considera que o raciocínio indutivo
carece de justificação lógica. Para Popper, apesar de as leis
científicas não poderem ser indutivamente verificadas, elas podem ser
falsificadas através da observação de um único caso negativo. Assim, a
falsificabilidade baseada na observação, mais do que a verificabilidade,
é aquilo que dá à ciência o seu carácter empírico."
Peter Achinstein, “O problema da demarcação”, in https://criticanarede.com/cien_demarcacao.html