quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Matriz para o 2ºTeste Sumativo - Novembro 2017


Competências
·                  Construir argumentos formais.
·                  Saber aplicar as regras de validade.
·                  Identificar as principais falácias formais.
·                  Distinguir demonstração e argumentação.
·                  Compreender as regras dos argumentos informais.
·                  Identificar argumentos indutivos, por analogia e de autoridade qualificada.
·                  Aplicar as condições de validade destes argumentos a argumentos dados.
·                  Compreender as principais falácias informais.
·                  Compreender o âmbito de estudo da retórica.
·                  Definir os dois usos da retórica persuasão e manipulação
·                  Explanar os elementos constitutivos do discurso persuasivo: Ethos, Pathos e Logos
            Elaborar um pequeno ensaio argumentativo.

Conteúdos
Racionalidade Argumentativa e Filosofia.
1. Argumentação e lógica formal

1.1. Formas de inferência válida.
Silogismos
Argumentos condicionais, Ponens e Tollens e disjuntivos
1.2. Principais falácias formais

2. Argumentação e retórica.

2.1 O domínio do discurso argumentativo e a procura de adesão do auditório. Demonstração e argumentação.
2.2. O discurso argumentativo: principais tipos de argumentos  informais.
2.2.1. Indução; Argumento de Autoridade; Analogia
2.2.2 Falácias que decorrem dos próprios argumentos informais.
2.3.Principais tipos de falácias informais.
2.3.1. Ad hominem; Ad misericordiam; Apelo à Ignorância; Apelo à Força; Falso Dilema e Petição de Princípio; Bola de Neve; Espantalho. 

3. Argumentação e Filosofia.
3.1. Persuasão e manipulação ou os dois usos da retórica. (opcional)
3.2. Elementos constitutivos da Retórica. (Ethos/Pathos, Logos)
Estrutura e cotações
Todas as questões são de resposta obrigatória

     Grupo I
50 Pontos
Questões de escolha múltipla

Grupo II
 120 Pontos
(Seis questões de resposta objetiva)

Grupo III

30 Pontos

Ensaio argumentativo



Critérios de correção



Domínio dos conceitos; Domínio dos conteúdos; Expressão clara e correta; Capacidade de aplicação dos conhecimentos adquiridos ; Originalidade e coerência nos argumentos apresentados; Capacidade de estabelecer relações oportunas entre os conteúdos; Objetividade e rigor; Técnica de análise de texto.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Retórica, propaganda e manipulação - Texto para ler e fotocopiar 11ºB e G

A manipulação conscienciosa e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões é um elemento importante da sociedade democrática. Aqueles que manipulam este oculto mecanismo da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder regulador do nosso país.
Somos governados, as nossas mentes moldadas, os nossos gostos formados, as nossas ideias sugeridas, em grande medida por homens dos quais nunca ouvimos falar. Este é o resultado lógico do modo com a nossa democracia está organizada. Um vasto número de seres humanos têm de cooperar desta maneira se querem viver em conjunto como uma sociedade que funcione tranquilamente. (...)

Nos dias em que os reis eram reis, Luís XIV proferiu esta modesta observação: “O Estado sou eu”. Ele estava quase certo.
Mas os tempos mudaram. A máquina a vapor, a impressão em série, a escola pública, este trio da revolução industrial, retirou o poder aos reis e deu-o ao povo. O povo hoje conquista o poder que o rei perdeu. O poder económico tende a ser arrastado pelo poder político; a história da revolução industrial mostra como o poder passou do rei e da aristocracia para a burguesia. O sufrágio universal e a escola universal reforçaram esta tendência, e por fim mesmo a burguesia sente-se ameaçada pelas pessoas comuns. As massas prometem ser o próximo rei.
Hoje, contudo, surge uma reação. A minoria descobriu um poderoso auxiliar para influenciar as massas. Tornou-se então possível moldar a mentalidade das massas que se lançarão com o seu vigor recém-adquirido na direção desejada. Na actual estrutura da sociedade, esta prática é inevitável. Qualquer que seja a importância social que lhe é dada hoje, seja na política, finança, industria, agricultura, caridade, educação, ou noutros campos, deve ser feita com recurso à propaganda. A propaganda é o braço executor do governo invisível.
Supunha-se que a literacia universal educaria o homem comum a controlar o meio ambiente. Uma vez que podia ler e escrever poderia ter uma mentalidade apta a governar. Mas em vez de uma mentalidade, a literacia universal ofereceu-lhe carimbos, carimbos esses pintados com slogans publicitários, com editoriais, com dados científicos, com as trivialidades dos tablóides e as vulgaridades da história, mas pouco inocentes no que respeita à originalidade. Cada carimbo humano é duplicado de milhões de outros, de modo que quando estes milhões são expostos aos mesmos estímulos, recebem todos impressões idênticas. (…)O mecanismo pelo qual as ideias são disseminadas em larga escala é a propaganda, no sentido lato de um esforço organizado para espalhar uma convicção ou uma doutrina.
Estou consciente que a palavra propaganda provoca em muitas mentes uma conotação desagradável. De qualquer maneira, em qualquer circunstância, a propaganda ser boa ou má depende do mérito da causa advogada, e da correção da informação publicada.(…)

Trotter e Le Bon concluíram que a mentalidade de grupo não pensa no sentido estrito da palavra. Em vez de pensamentos tem impulsos, hábitos, e emoções. Ao elaborar o seu pensamento o primeiro impulso geralmente é seguir o exemplo de um líder em que se confia. Este é um dos princípios mais firmemente estabelecidos da psicologia de massas. Funciona a subida ou diminuição de prestígio de uma estância estival, ao provocar uma corrida a um banco, ou o pânico na cotação de ações, ao criar um “best-seller” ou u êxito de bilheteira. Mas quando o exemplo do líder não está à mão e a multidão tem de pensar por si, fá-lo com o recurso a clichés, palavras ou imagens que permanecem na globalidade de um grupo de ideias e experiências. Não há muitos anos atrás, era somente preciso etiquetar um candidato político com a palavra interesses para fazer com que milhões de pessoas votassem contra ele, porque qualquer coisa associada a “os interesses” parecia necessariamente corrupta. Recentemente a palavra Bolchevique tem desempenhado um serviço semelhante a pessoas que desejam assustar o público para o afastar de uma linha de ação.(…)
Os homens raramente se apercebem das verdadeiras razões que motivaram as suas ações. Um homem pode acreditar que compra um carro porque, depois de ter cuidadosamente estudado as características técnicas de todas as marcas no mercado, concluiu que aquele é o melhor. Quase de certeza que se está a enganar a si próprio. Compra-o, talvez, porque um amigo, cuja esperteza financeira respeita, comprou um na semana anterior; ou porque os seus vizinhos crêem que ele não é capaz de ter recursos para comprar um carro daquela categoria; ou porque vem com as cores do lar universitário de estudantes em que viveu.
Foram principalmente os psicólogos da escola de Freud que identificaram que muitos dos pensamentos e ações do homem são substitutos compensatórios dos desejos que são obrigados a reprimir. (…) Os desejos humanos são o vapor que faz a máquina social funcionar. Só compreendendo-os o propagandista pode controlar esse vasto mecanismo, ao mesmo tempo solto e unido, que é a sociedade moderna.

Edward Bernays (1928) Propaganda, Lisboa, Mareantes Editora, 2005 (p.p 19, 31,32,  64,66)


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

MATRIZ DA PROVA DE FILOSOFIA OUTUBRO 2017




I
Conteúdos:




1.De que trata a Lógica.
2. Conceito/termo; Juízo/proposição e Raciocínio/argumento.
3.Verdade e validade.
4.Validade dedutiva e não dedutiva.
5.Validade formal e forma lógica.
6. Conversão de um argumento dedutivo à forma tradicional de um silogismo.
7. Argumentos com proposições categóricas, condicionais e disjuntivas.
8. Lógica Aristotélica:
9. Os termos como classes.
10. As Proposições categóricas: Forma padrão, classificação e negação.
11. O quadrado da oposição: forma de inferência imediata.
12. A distribuição dos termos nas proposições.
12. Silogismos.
a. Definição e estrutura padrão.
b. Validade, figura e modo.
c. Redução de um argumento em linguagem natural à forma padrão de um silogismo.
II
Competências:
1. Memorizar regras e definições.
2. Aplicar as regras de distribuição dos termos nas proposições.
3. Classificar correctamente proposições.
4. Reduzir à forma padrão proposições e argumentos
5. Compreender o modo de inferir uma proposição de outra.
6. Identificar figuras e modos de silogismos.
7. Determinar a validade dos silogismos.
8. Identificar as falácias dos silogismos inválidos.
9. Apreender a forma lógica de uma proposição e de um argumento.
10. Distinguir argumentos de não-argumentos.
11. Construir proposições e argumentos.
12. Converter um argumento à forma padrão do silogismo categórico.
 

III


Estrutura e Cotações:
Grupo 1
6 perguntas de resposta curta - 6x15 = 90
Grupo 2
10 Perguntas de escolha múltipla ou de verdadeiro falso - 10x5=50
Grupo 3
3 perguntas de construção - 3x20=60


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Exercícios com proposições.2



1.       Se a proposição: “Todos os animais são seres vivos” for Verdadeira, o que sabemos acerca do valor de verdade da sua contrária, da sua contraditória e da sua subalterna. Justifique.

2. Converta as seguintes proposições na forma padrão e classifique-as:

  1. “Certas revoluções não são urgentes”
  2. “Os portugueses não são bárbaros”
  3. “Os fenómenos físicos obedecem a leis”
  4. “Há dirigentes desportivos corruptos.”
  5. “ Os vampiros são personagens de ficção.”


3. Determine a distribuição dos termos em cada uma das proposições.

4. Negue as seguintes proposições: A -  Não há ninguém inocente.” B -  Alguns actores trabalham com a imaginação”. Justifique. (15)

5. Partindo do pressuposto que a proposição B é verdadeira que podemos inferir acerca da verdade das suas opostas? Justifique.(15)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Exercícios com proposições.1

Converta cada uma das seguintes proposições à forma padrão das proposições categóricas e classifique-as:
1. Certos filmes não têm cópias em mau estado.
2. As leituras desenvolvem a imaginação
3. Não há tigres que não sejam mamíferos
4. Nem todas as ideologias são aceitáveis
5. Quem corre por gosto não se cansa.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017


Joaquin Sorolla, Estudo sobre o mar, Valencia, 1904


Tales tentou compreender o mundo sem invocar a intervenção dos deuses. Como os babilónicos, acreditava que o mundo já tinha sido água. Para explicar a terra seca, os babilónicos diziam que Marduk tinha colocado uma esteira na face das águas e amontoado areia sobre ela. Sim, tudo tinha sido água, mas a Terra surgiu dos oceanos por um processo natural, similar, ele julgava, à obstrução que tinha observado no delta do Nilo. Pensava realmente que a água era um princípio comum subjacente a toda matéria, assim como hoje em dia dizemos o mesmo de eletrões, protões e neutrões, ou dos quarks. Se a conclusão de Tales estava ou não correta não importa, mas sim o seu lema: o mundo não era governado pelos deuses, mas sim pelo trabalho das forças materiais interagindo com a Natureza. Tales trouxe da Babilónia e do Egito as sementes das novas ciências, astronomia e geometria; ciências que germinaram e cresceram no solo fértil da Jónia. Muito pouco se sabe da vida pessoal de Tales, mas Aristóteles narra uma anedota reveladora na sua obra Política: [Tales] era censurado pela sua pobreza, que se supunha ser prova de que sua filosofia não tinha utilidade. De acordo com a história, sabia pela sua perícia [em interpretar os céus], enquanto ainda era inverno, que haveria uma grande colheita de azeitonas no ano seguinte, de modo que, tendo pouco dinheiro, fazia depósitos pelo uso das prensas de azeitonas em Quio e Mileto, as quais alugava a preços baixos porque ninguém lhe dava ouvidos. Quando chegava a colheita, e havia necessidade de muitas, cedia-as ao preço que lhe convinha e ganhava uma boa quantia de dinheiro. Assim provava que os filósofos do mundo podiam facilmente ficar ricos se quisessem, mas que a sua ambição era outra. Era famoso como sábio político, incitando com sucesso os Milesianos a resistir à assimilação por Creso, Rei da Lídia, mas não foi feliz ao apelar a uma federação de todos os estados insulares da Jónia contra os Lídios. Anaximandro de Mileto era amigo e colega de Tales, um dos primeiros, que se tem conhecimento, a fazer experiências. Examinando o movimento de uma sombra lançada por uma vareta vertical, determinou com precisão a duração do ano e das estações. Por anos os homens utilizaram varetas para lutar ou matar. Anaximandro utilizou-as para medir o tempo. Foi a primeira pessoa na Grécia a fazer um relógio de sol; um mapa do mundo conhecido e um globo celeste que mostrava os traços das constelações. Acreditava que o Sol, a Lua e as estrelas eram feitos de fogo vistos através de buracos que se moviam na abóbada do céu, provavelmente uma ideia bem mais antiga. Sustentou a opinião admirável de que a Terra não era suspensa ou sustentada mas, para ele, era o centro do universo; uma vez sendo equidistante de todos os pontos da "esfera celeste" não havia força capaz de movê-la. Argumentava que somos tão desamparados ao nascer, que se os primeiros bebés fossem colocados no mundo e deixados a sós, talvez morressem de imediato. Partindo daí, Anaximandro concluía que os seres humanos surgiram de outros animais com recém-nascidos mais capazes. Propôs a geração espontânea da vida na lama, os primeiros animais tinham sido peixes cobertos por espinhos. Alguns descendentes desses peixes abandonaram eventualmente a água e dirigiram-se para a terra seca, onde evoluíram para outros animais por transmutação de um tipo para outro. Acreditou num número infinito de mundos, todos habitados e sujeitos a ciclos de dissolução e regeneração. "Nem ele", queixou-se lamentavelmente Santo Agostinho, "nem Tales atribuíram a causa de toda esta atividade sem fim a uma mente divina."

                                                                                                                                                              Carl Sagan, Cosmos,

A história da Filosofia parece ser a história do tempo em que os professores nas suas aulas ainda se interessavam por este percurso de ensinar a forma como a filosofia surgiu. A questão da origem foi progressiva e inexoravelmente substituída pela noção de causa. A questão histórica substituída pela questão estrutural da linguagem e assim se foi perdendo como sendo displicente. O argumento era sempre o mesmo, o velhinho e gasto argumento de Kant de que se pode ensinar História da Filosofia mas que História não é Filosofia e que só se aprende Filosofia filosofando. Bom,  poderia para rebater Kant, usar B. Russell como quem usa uma colher para comer esparguetti, diz ele, e desculpem-me se pareço subtilmente superficial em matérias tão sérias, diz ele, repito,  que sem História não há progresso na Filosofia pois os filósofos não saberiam de que modo os antigos filósofos argumentaram e resolveram as questões e cairiam facilmente nos erros já cometidos por eles. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Trabalho para casa 11ºB e G. Ficha 2 - Lógica

Construção de argumentos dedutivos. Distinção entre premissas e conclusão.

1. Retire a conclusão das seguintes premissas:
a) A Catalunha é uma província de Espanha, as províncias de Espanha dependem do governo central Espanhol.
b) Todas as crianças têm um pai e uma mãe registados e quem tem um pai e uma mãe registados não é ilegítimo.
c) As praxes favorecem a subordinação e o que favorece a subordinação impede a liberdade individual.
d) O aquecimento global destrói o gelo nos polos, este gelo constitui a maior reserva de água do planeta Terra.

2. Estabeleça as premissas que são necessárias para retirar as seguintes conclusões:

a) Os filósofos são lógicos.
b) Quem estuda passa de ano.
c) Há dirigentes desportivos corruptos.
d) Picasso não é copiador.











quinta-feira, 1 de junho de 2017

O sentido da vida




DEUS E O SENTIDO DA VIDA I
(ENTRE A ESCRAVIDÃO E A INSIGNIFICÂNCIA?)

As questões sobre o sentido e o propósito [da vida] nem sempre perturbaram as pessoas como acontece hoje. Numa era religiosa estas questões eram deixadas ao cuidado de um sábio Criador. Este Criador, acreditava-se, fez o mundo, e tudo o que nele existe, com um propósito. O Homem, e cada homem individual, era parte de um grande desígnio. Além disso, o homem ocupava um lugar de especial importância nesse desígnio, tendo sido feito ‘à imagem de Deus’ por um acto especial de criação. Foi-lhe dado o poder da razão que o colocou acima dos animais. Além disso, foi dotado, ao contrário destes últimos, de uma alma imortal. Isto significava que a morte não era o fim da vida de uma pessoa, mas apenas uma passagem para outra forma de existência superior, de acordo com o propósito de Deus. A terra e todas as suas criaturas foram dadas ao homem. Neste grande plano, a existência delas está ao serviço dos humanos. O lugar onde os humanos habitam, a terra, ocupava um lugar central no cosmos, tendo o sol e os outros corpos celestes sido criados para seu benefício.

O que resta destas crenças hoje? Hoje acreditamos que a terra é um planeta menor circulando em torno do sol, ele próprio uma estrela indistinta, uma entre um vasto número de estrelas pertencentes a uma galáxia que, por sua vez, faz parte de um conjunto inumerável ou mesmo infinito de galáxias. Este planeta menor apareceu devido a uma explosão casual de materiais cósmicos, sofreu vários processos químicos e continuará a existir e a ser uma casa onde se pode viver até que as condições voltem a mudar, quem sabe se devido a uma pequena mudança da temperatura do sol. É-nos dito que a vida surgiu provavelmente de uma combinação química acidental e que há razões para pensar que as mesmas condições possam surgir, ou tenham surgido, noutra parte do universo. A teoria da seleção natural diz-nos que a espécie humana não existe por um ato especial de Deus. Em vez disso, é o resultado de um processo de seleção cego decorrente da luta pela sobrevivência, tendo evoluído por pequenos passos impercetíveis a partir de criaturas semelhantes a macacos, sendo o chimpanzé moderno um primo próximo. Os psicólogos dizem-nos que o pensamento e ação humanas são em larga medida determinados por processos obscuros inconscientes e não pela luz da razão. Além disso, apesar de ser válido que o homem detém poderes de discurso e de raciocínio especiais, está longe de ser claro que devamos considerar estes poderes mais especiais que estes ou aqueles poderes notáveis característicos de outros animais. Não há razão para pensar que o homem é melhor ou ‘superior’ e, olhando para as suas atividades destruidoras, até seria razoável fazer o juízo oposto.

E que dizer da crença no plano de Deus e também da vida após a morte? Há ainda muita gente que defende estas ideias. Trata-se, no entanto, de uma minoria, pelo menos no mundo ocidental. Mesmo os crentes religiosos, cercados por uma cultura secular, não se sentem confortáveis com as perspetivas religiosas sobre o sentido e propósito como antigamente.

As conceções modernas do homem e do mundo não resultam meramente da substituição de uma explicação ou teoria por uma outra. Houve uma mudança no próprio conceito de explicação e quanto ao que uma explicação deve ser. Antes pensava-se que o único tipo de explicação real ou realmente satisfatória teria de referir-se a um propósito. Explicar-se-ia um fenómeno dizendo para que servia, qual o propósito que lhe dava um homem, animal ou Deus. Havia também a explicação causal que se referia ao que precedeu o fenómeno, mas este tipo de explicação era entendido como incompleto e inferior. Era apenas com o outro tipo que podíamos obter uma compreensão real. Nos tempos modernos, porém, e especialmente desde a época de Hume, a explicação causal suplantou largamente o outro tipo, o tipo teleológico. As teorias científicas modernas não são expressas em termos teleológicos e as modernas leis da natureza não são acerca de fins e de propósitos, mas acerca de regularidades observadas no mundo. Explicamos porque acontece algo, não olhando para a frente em direção a um fim ou objetivo, mas olhando para trás para uma causa antecedente.

Num certo sentido, estas explicações são menos satisfatórias do que as explicações teleológicas. A explicação que faz referência às leis da natureza diz, com efeito, que um acontecimento ou sequência de acontecimentos ocorre porque as coisas sempre assim ocorrem. Porém, isto é apenas ligar um facto bruto (um facto particular) a outro (uma regularidade geral). Nesse sentido, diz-se muitas vezes que a ciência moderna é, no fim de contas, meramente descritiva. Diz-nos como acontecem as coisas e não porquê. Uma explicação teleológica, ao invés, dá sentido e significado ao acontecimento. Isto é particularmente claro no caso de uma ação humana consciente, na qual a perceção do significado da ação pode ser dado pelo agente em termos do propósito deste ou desta. Se este tipo de explicação pudesse ser aplicado aos fenómenos naturais em geral, também eles teriam este género de significado. Mas, como já disse, este modo de explicar foi largamente abandonado em favor do outro tipo de explicação, ‘sem sentido’, que se mostrou mais frutuoso em outros aspetos.

Qual o impacte destas mudanças na nossa conceção de nós mesmos? ‘Poderia argumentar-se, escreve Kurt Baier, que quanto mais claramente compreendemos as explicações dadas pela ciência, mais somos levados para a conclusão de que a vida humana não tem um propósito e, portanto, um sentido’. Baier rejeita esta conclusão. Nota que no sentido habitual de ‘propósito’, as vidas humanas não estão menos ligadas a um propósito do que estavam antes. Continuamos a viver grande parte das nossas vidas perseguindo objetivos de um tipo ou de outro. A questão ‘Porque estás a fazer isso?’, ou seja, ‘Qual o teu propósito?’, continua a ser posta tanto quanto o era antes e uma resposta satisfatória pode ser dada em muitos casos. É verdade que algumas pessoas vivem as suas vidas com menos rumo do que outras, mas também neste caso sempre assim foi e nada tem a ver com os desenvolvimentos científicos e com a moderna conceção do lugar do homem no mundo. De facto, segundo Baier, ‘A ciência não só não nos roubou nenhum propósito que tínhamos antes, mas apetrechou-nos com um poder muito maior para atingir estes propósitos’.

Baier distingue ainda um uso secundário de ‘propósito’, aplicado a coisas e não a pessoas, como quando perguntamos ‘Qual o propósito daquele aparelho que instalaste na oficina?’ Neste caso, não estamos a dizer que o objeto é motivado por um propósito. A ideia é antes a de que lhe é dado um propósito, o propósito da pessoa que o fez ou instalou. É este sentido de propósito diminuído pela perspetiva científica? Não. Continuamos a fazer todo o género de coisas destinadas a cumprir um propósito dizendo, neste sentido, que ‘têm um propósito’.

Mas o que dizer do homem? Pode dizer-se que o homem, na perspetiva religiosa, cumpre um propósito, em vez de perseguir propósitos por si. E esta atribuição de propósito, esta resposta à questão sobre o propósito da vida, fica fora do nosso alcance uma vez abandonada a perspetiva religiosa. Para Baier, porém, esta resposta sempre foi desprovida de valor. ‘Atribuir a um ser humano um propósito neste sentido... é ofensivo. É degradante para um homem ser visto como algo que cumpre um propósito’. Ao tratar um homem dessa forma, diz Baier, ‘reduzi-lo-íamos ao nível do utensílio, do animal doméstico ou talvez do escravo, tratá-lo-íamos, como na frase de Kant, meramente como um meio para os nossos fins, não como um fim em si mesmo’.

Estas observações são verdadeiras e importantes. São elas relevantes? Se nós tratarmos seres humanos dessa maneira, como ‘cumprindo um propósito’, não os trataremos com o devido respeito e o nosso tratamento seria moralmente ofensivo. Mas daqui não se segue que os seres humanos seriam degradados por servir o plano de Deus, que Ele os degrada ao tratá-los dessa forma ou ao criá-los para o Seu propósito. Uma observação similar pode ser feita acerca da relação entre homens e animais. A maior parte das pessoas diria que não é degradante para um animal o ser usado para um propósito. Por exemplo, se alguém compra um cão para desencorajar os ladrões, isto não seria moralmente degradante ou ofensivo. 

Os crentes religiosos não são, e não precisam de se sentir, ofendidos pela ideia de que existem para cumprir um propósito de um ser superior. Podem também afirmar que isto dá às suas vidas o tipo de propósito e sentido que a perspetiva científica só por si lhes não poderia dar.

As observações de Baier acerca do papel permanente e, na verdade, inevitável da existência de um propósito nas nossas vidas não nos ajudam também quanto ao sentimento de insignificância que resulta da revolução científica. Ficamos chocados quando tomamos conhecimento destes factos sobre a situação humana no espaço e no tempo e ficámos chocados quando estas ideias foram introduzidas pela primeira vez. Segue-se delas que as nossas vidas são realmente sem sentido? É claro que não há um silogismo que procede de premissas acerca de cosmologia ou da seleção natural para a conclusão de que a nossa vida é desprovida de sentido. E deve notar-se, como faz Baier, que há critérios independentes de questões de cosmologia ou de história natural que podem ser usados para descrever uma vida humana quer como plena de sentido quer como desprovida dele.

No entanto, a imagem científica priva-nos de sentido numa aceção diferente. Há uma conexão entre sentido e importância e se a imagem científica é correta, não temos a importância que pensávamos ter. Esta conexão entre sentido e importância está refletida no uso da palavra ‘insignificante’. Algo que não tem importância pode ser descrito como insignificante ou (nessa aceção) sem sentido. Podemos entender desta maneira o veredicto de Macbeth ‘a vida não é mais do que uma sombra em movimento ... que nada significa’.

Oswald Hanfling, The Quest For Meaning (Oxford, 1987), pp. 42-46. Tradução de Carlos Marques.