“É totalmente errado admitir que a objetividade da ciência
está dependente da objetividade do cientista. Assim como é totalmente errado
pensar que há maior objetividade, a nível individual, nas ciências da natureza,
do que nas ciências sociais. O cientista da natureza é tão parcial quanto
qualquer outro indivíduo e infelizmente – se não pertencer ao pequeno número
dos que estão continuamente a produzir novas ideias -, é conquistado
normalmente, de uma forma unilateral e parcial, pelas suas próprias ideias. Alguns
dos mais destacados físicos contemporâneos fundaram inclusivamente escolas que
opõem uma forte resistência a qualquer ideia nova.
Aquilo que se pode designar por objetividade científica
encontra-se única e exclusivamente na tradição crítica, na tradição que, mau
grado todas as resistências, permite muitas vezes criticar um dogma dominante.
Dito de outro modo, a objetividade da ciência não é uma questão individual dos
diversos cientistas, mas antes uma questão social da sua crítica recíproca, da
divisão de trabalho, amistoso-hostil, dos cientistas, da sua colaboração, mas
também das guerras entre si. Está, por conseguinte, dependente em parte de todo
o conjunto de circunstâncias, sociais e políticas, que tornam possível tal
crítica. (…)
Numa discussão crítica distinguem-se questões como: (1) a
questão da verdade de uma asserção; a questão da sua relevância, do seu
interesse e do seu significado relativamente aos problemas em causa. (2) A
questão da sua relevância, do seu interesse e do seu significado relativamente
a diversos problemas extra-científicos , como por exemplo o problema do bem
estar humano, ou ainda, o problema completamente distinto da defesa interna, de
uma política ofensiva nacional, do desenvolvimento industrial, ou do
enriquecimento pessoal.
É obviamente impossível dissociar esses interesses
extra-científicos da investigação científica; tal como é igualmente inviável,
dissocia-los da investigação quer na área das ciências da natureza – no campo
da física, por exemplo – quer na área das ciências sociais.
O que é possível e importante e que confere à ciência o seu
carácter específico não é a eliminação, mas antes a distinção entre os
interesses não inerentes à procura da verdade e o interesse puramente
científico pela verdade. No entanto, se bem que a verdade constitua o valor
científico essencial, não é o único. A relevância, o interesse e o significado
de uma asserção relativamente à formulação puramente científica de um problema
constituem igualmente valores científicos de primeira ordem, do mesmo modo que
o são a inventividade, a capacidade de esclarecimento, a simplicidade e a
precisão. (…)
…uma das tarefas da crítica e da discussão científicas é a
de lutar contra a confusão das esferas de valores e, em particular, eliminar as
valorações extra-científicas das questões relativas à verdade. (…) O cientista
objetivo e despido de valores não é o cientista ideal. Sem paixão nada avança,
e muito menos a ciência pura. A expressão “amor à verdade” não é uma mera
metáfora.
Portanto, não só a objetividade e o despojamento de valores
são praticamente inacessíveis ao cientista, como também essa objetividade e
esse despojamento são já em si valores. E sendo o despojamento de valores ele
mesmo um valor, a exigência desse despojamento constitui um paradoxo."
Karl Popper, Em busca de um mundo melhor, Lx, 1989, Ed.
Fragmentos, pp77,78,79
Nenhum comentário:
Postar um comentário