Um tipo diferente de objeção à perspetiva simples do
método científico levanta-se pelo facto de esta se apoiar na indução, e não na
dedução. A indução e a dedução são dois tipos diferentes de argumentos. Um
argumento indutivo envolve uma generalização baseada num certo número de
observações específicas. Se eu observar um grande número de animais com pelo,
concluindo a partir das minhas observações que todos os animais com pelo são
vivíparos (isto é, dão à luz crias em vez de porem ovos), estaria a usar um argumento
indutivo. Um argumento dedutivo, por outro lado, parte
de certas
premissas, passando depois logicamente para uma
conclusão que se segue dessas premissas. Por exemplo, das premissas «Todas as
aves são animais» e «Os cisnes são aves» posso concluir que, portanto, todos os
cisnes são animais: este é um argumento dedutivo. Os argumentos dedutivos
preservam a verdade. Isto significa que, se as suas premissas
são verdadeiras, as suas conclusões têm de ser verdadeiras.
Entraríamos em contradição se afirmássemos as premissas e negássemos a
conclusão. Assim, se as premissas «Todas as aves são animais» e «Os cisnes são
aves» são ambas verdadeiras, tem de ser verdade que todos os cisnes são
animais. Ao invés, os argumentos indutivos com premissas verdadeiras podem ter
ou não conclusões verdadeiras. Mesmo que todas as observações de animais com
pelo por mim efetuadas tenham sido fidedignas e que todos os animais sejam de
facto vivíparos, e mesmo que tenha feito milhares de observações, pode vir a
descobrir-se que a minha conclusão indutiva de que todos os animais com pelo
são vivíparos é falsa. Na verdade, a existência do plácido ornitorrinco, um
tipo peculiar de animal com pelo que põe ovos, significa que se trata de uma
generalização falsa.
Apesar deste papel central desempenhado pela indução nas
nossas vidas, é um facto indesmentível que o princípio da indução não é
inteiramente fidedigno. Como já vimos, pode dar-nos uma conclusão falsa
relativamente à questão de saber se é verdade que todos os animais
com pelo são vivíparos. As suas conclusões não são
tão fidedignas quanto as conclusões resultantes de argumentos
dedutivos com premissas verdadeiras. Para ilustrar este aspeto, Bertrand
Russell, nos "Problemas da Filosofia", usou o exemplo de uma galinha
que acorda todas as manhãs pensando que, uma vez que foi alimentada no dia
anterior, sê-lo-á mais uma vez naquele dia. Um dia acorda e o camponês
torce-lhe o pescoço. A galinha estava a usar um argumento indutivo
baseado num grande número de observações. Estaremos a ser tão tolos quanto esta
galinha ao apoiar-nos tão fortemente na indução? Como poderemos justificar a
nossa fé na indução? Este é o chamado problema da indução, um problema
identificado por David Hume no seu "Tratado acerca do Conhecimento
Humano".
Como poderemos nós alguma vez justificar a nossa confiança num método de
argumentação tão pouco digno de confiança? Esta questão é particularmente
relevante para a filosofia da ciência porque, pelo menos na teoria simples
delineada acima, a indução desempenha um papel crucial no método
científico.
Nigel Walburton, Elementos básicos da Filosofia, Lisboa,
1998, Gradiva, 172,173
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