“ Mas as palavras são uma coisa e os conceitos outra. A
palavra “facto” diz-nos pouco sobre o estabelecimento e a refutação dos factos.
Na astronomia isto é verdade mas, em outros domínios da investigação
científica, a palavra consolida uma revolução conceptual.
De acordo com os princípios-padrão da revolução
renascentista, havia, fundamentalmente, duas espécies de argumento: os
argumentos da razão e os argumentos de autoridade. Havia vários tipos de
argumentos reunidos sob o letreiro de “autoridade”: argumentos de “costume,
opinião pública, antiguidade, testemunhos dos especialistas na sua própria
arte, o juízo dos sábios ou de muitos ou dos melhores”1
Portanto, quando em 1651 pascal esboçou uma introdução ao
seu tratado incompleto sobre o vácuo, começou por distinguir duas fontes de
conhecimento: razão e autoridade. Como é que sabemos os nomes dos reis de
França ao longo da história? Pela autoridade: o testemunho documental está
classificado sob a autoridade. Mas de repente e vindo do nada, pascal
apresenta-nos a experiência dos sentidos como complemento da razão (embora
alguns autores tenham classificado os sentidos no domínio da autoridade).
Portanto as decisões sobre a existência do vácuo devem ser tomadas não apelando
à autoridade mas com base na experiência dos sentidos e da razão. E onde se
encaixa o testemunho pessoal de pascal sobre o desfecho das suas experiências?
Não o diz. (…) O testemunho, como forma de autoridade, só parece relevante em
condições muito restritas. O facto de todos os seus argumentos estarem nos
argumentos finais resultantes do testemunho não lhe parece ter ocorrido.
Este esquema tradicional foi revolucionado por Hobbes. No
que lhe dizia respeito, havia só duas fontes de conhecimento: a razão, por um
lado, e a experiência, por outro, com a memória e o testemunho, sendo que todos
estes elementos estabeleciam as matérias de facto. No âmbito deste esquema, não
havia lugar para o hábito, a opinião pública, a antiguidade ou o juízo dos
sábios mas o local do testemunho era claro: como a memória, representava uma
forma substituta da experiência imediata dos sentidos. Hobbes não diria que
herdamos da autoridade o nosso conhecimento dos reis de França. O que teria
dito é que o retiramos de imediato do testemunho e, finalmente, da experiência
dos sentidos.
A palavra “facto” simbolizou este novo estatuto concedido ao
testemunho. (…) Assim, antes da invenção do facto, a o apelo ao testemunho era
visto como um apelo à autoridade (e até Digby, que escreveu em 1658, as
testemunhas visuais eram pensadas como autoridades): as testemunhas, digamos
assim eram vistas como testemunhas abonatórias e não testemunhas visuais.
Depois do facto, a testemunha visual torna-se uma espécie de testemunha virtual
(….) Com o testemunho separado da autoridade, o que antes era autoridade
torna-se, nas palavras de Glanvill, simplesmente “bagagem velha e inútil”.
Sprat foi ainda mais contundente: livrarem-se da tirania dos antigos implicava
apenas deitar fora aquilo que ele considerava “ o lixo”.
Depois da invenção do facto, o testemunho podia ser encarado
como uma espécie de desconfiança sistematizada. No fim, todos os sistemas de
conhecimento requerem que a pessoa deposite a sua confiança em alguém, em
alguma coisa ou em algum procedimento. Mas salientar o papel incontestável da
confiança na nova ciência é correr o risco de não reparar na grande parte do
iceberg que se encontra escondida debaixo de água. Boyle afirmava ser de
confiança por ter aprendido a desconfiar dos Della Portas deste mundo, esperando
ensinar os outros a lerem a sua obra com o mesmo espírito cético com que ele
lera o trabalho de Della Porta. A nova ciência, comparada com o que acontecera
antes, era baseada na desconfiança e não na confiança.
David Wootton, A invenção da ciência, Lx, Temas e
debates, 2017, p. 374,375,376
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