Indução e dedução na física (1919)
Induction and
deduction in physics (1919)
Albert Einstein
“O enorme progresso da ciência natural surgiu de uma maneira que
é quase diametralmente oposta à indução. A compreensão intuitiva dos aspetos
essenciais do enorme complexo de fatos leva o pesquisador a construir uma ou
várias leis fundamentais hipotéticas. A partir da lei fundamental (sistema de
axiomas), o pesquisador extrai as suas consequências, de maneira tão completa
quanto possível, por um método puramente lógico-dedutivo. Essas consequências,
que frequentemente só podem ser derivadas da lei fundamental por extensos
cálculos e elaborações, podem, então, ser comparadas com a experiência,
fornecendo um critério para a validade da suposta lei fundamental. Juntas, a
lei fundamental (axiomas) e as consequências formam aquilo que denominamos uma
"teoria". Toda pessoa instruída sabe que os maiores progressos da
ciência, por exemplo, a teoria da gravitação de Newton, a termodinâmica, a
teoria cinética dos gases, a moderna eletrodinâmica, e assim por diante,
surgiram todas dessa maneira e o seu fundamento tem, por princípio, um caráter
hipotético. Com efeito, o pesquisador sempre parte dos factos, cuja conexão
constitui o objetivo de seus esforços. Porém ele não chega ao seu sistema de
pensamento de uma maneira metódica e indutiva; antes, ele se agarra aos factos
por uma escolha intuitiva dentre as teorias axiomáticas concebíveis.
Uma teoria pode, assim, ser identificada como errada, caso haja
um erro lógico nas suas deduções, ou como incorreta, se um fato não estiver de
acordo com as suas consequências. Porém a verdade de
uma teoria nunca pode ser provada. Pois nunca se sabe se, mesmo no futuro, não
se encontrará uma experiência que contradiga as suas consequências; e, ainda,
sempre se pode conceber outros sistemas de pensamento capazes de conectar os
mesmos factos dados. Se estão disponíveis duas teorias, ambas compatíveis com o
material factual dado, então não há outro critério para se preferir uma ou
outra, a não ser a visão intuitiva do pesquisador. Assim, podemos compreender
como é que pesquisadores perspicazes, que dominam as teorias e os factos, podem
ainda assim ser defensores apaixonados de teorias contraditórias.”
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