quarta-feira, 11 de março de 2026

Texto para resumo Tiago Camarinha 11A

 


A ciência como actividade social

A filosofia tradicional da ciência é implacavelmente individualista. Centra-se em agentes individuais e nas condições que devem satisfazer para que as suas crenças tenham apoio apropriado. À primeira vista, isto é uma limitação curiosa, pois é evidente que a ciência contemporânea (e a maior parte da ciência do passado) é uma actividade social. Os cientistas apoiam-se uns nos outros para obter resultados, amostras, técnicas e muitas outras coisas. As suas interacções são com frequência cooperativas, e por vezes competitivas. Além disso, nas sociedades em que se leva a cabo a maior parte da investigação científica, o trabalho coordenado da ciência situa-se numa rede de relações sociais que ligam laboratórios a agências governamentais, a instituições educativas e a grupos de cidadãos. Poderá a filosofia da ciência ignorar simplesmente este contexto social?

Muitos filósofos pensam que sim. Vale a pena recordar, contudo, que uma das principais influências no desenvolvimento da ciência moderna, Francis Bacon, estava explicitamente preocupado com a ciência como actividade social e que os fundadores da Royal Society tentaram criar uma instituição que seguisse as directrizes de Bacon. Além disso, como a discussão anterior da revolução coperniciana parece mostrar, a noção de racionalidade social (ou colectiva) é filosoficamente importante. Em 1543, a escolha entre copernicianismo e a astronomia tradicional centrada na Terra não era clara; a discussão evoluiu porque alguns cientistas estavam dispostos a entregar-se à exploração de cada uma das perspectivas. Isso foi bom — mas o que tinha de bom era uma característica da comunidade, e não dos indivíduos. Caso uma das posições rivais tivesse estagnado e todos os membros da comunidade se tivessem dedicado a um único ponto de vista, teria sido difícil acusar qualquer indivíduo singular de um erro de racionalidade. Não teria sido, contudo, uma comunidade racional.

Este é um exemplo elementar de uma característica social da ciência que exige uma abordagem mais alargada da racionalidade do que é comum nas discussões filosóficas. Uma maneira de entender por que razão alguns métodos ou princípios merecem ser designados “racionais” é sugerir que o padrão último para avaliá-los é em termos da sua capacidade para dar lugar a crenças verdadeiras. Do mesmo modo, poder-se-ia supor que as instituições ou métodos de organização da investigação contam como racionais se for provável que aumentem as hipóteses de um estado futuro em que os membros da comunidade acreditam na verdade. (Esconde-se aqui complicações, que irão surgir daqui a pouco, mas podemos ignorá-las para já.) Não é difícil pensar em maneiras de promover a diversidade numa comunidade científica. Talvez o sistema educativo possa encorajar algumas pessoas a assumir grandes riscos e outras a seguir estratégias relativamente seguras. Talvez o sistema de recompensas por conquistas científicas possa ser configurado de maneira a que os indivíduos gravitem na direcção de linhas de investigação que pareçam negligenciadas. As técnicas comuns de modelagem matemática revelam que estruturas institucionais como estas produzem resultados colectivamente racionais em situações que parecem ocorrer repetidamente na história das ciências. Descobre-se assim que factores que se poderia pensar serem antitéticos à procura racional da verdade — distorções individuais ou interesse em recompensas sociais — desempenham efectivamente um papel positivo na actividade colectiva.


Philip Kitcher, Filosofia da Ciência,in Encyclopedia Britannica

 

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