Aulas- 11ºAno
OLÁ a Todos! Aqui estão alguns materiais para apoiar os vossos trabalhos filosóficos! Esperemos que sejam úteis!
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Texto para resumo Alexandre Feijão 11E e Carolina 11A
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Texto para resumo Manuel 11E e Beatriz 11A
"Nas diferenças entre a ciência moderna e o senso comum já mencionadas, está implícita a diferença importante que deriva de uma estratégia deliberada da ciência que a leva a expor as suas propostas cognitivas ao confronto repetido com dados observacionais criticamente comprovativos, procurados sob condições cuidadosamente controladas. Isto não significa, no entanto, que as crenças do senso comum sejam invariavelmente erradas, ou que não tenham quaisquer fundamentos em factos empiricamente verificáveis. Significa que, por uma questão de princípio estabelecido, as crenças do senso comum não são sujeitas a testes sistemáticos realizados à luz de dados obtidos para determinar se essas crenças são fidedignas e qual é o alcance da sua validade. Significa também que os dados admitidos como relevantes na ciência devem ser obtidos através de procedimentos instituídos com o objectivo de eliminar fontes de erro conhecidas. Deste modo, a procura de explicações na ciência não consiste simplesmente em tentar obter "primeiros princípios" que sejam plausíveis à primeira vista e que possam vagamente dar conta dos "factos" da experiência habitual. Pelo contrário, essa procura consiste em tentar obter hipóteses explicativas que sejam genuinamente testáveis, porque se exige que elas tenham consequências lógicas suficientemente precisas para não serem compatíveis com quase todos os estados de coisas concebíveis. As hipóteses procuradas devem assim estar sujeitas à possibilidade de rejeição, que dependerá dos resultados dos procedimentos críticos, inerentes à pesquisa científica, destinados a determinar quais são os verdadeiros factos do mundo."
Ernest Nagel, The Structure of Science (Nova Iorque, Harcourt, Brace & World, 1961). Tradução de Pedro Galvão
domingo, 18 de janeiro de 2026
Texto para resumo Sarah Silva 11E
“ Mas as palavras são uma coisa e os conceitos outra. A
palavra “facto” diz-nos pouco sobre o estabelecimento e a refutação dos factos.
Na astronomia isto é verdade mas, em outros domínios da investigação
científica, a palavra consolida uma revolução conceptual.
De acordo com os princípios-padrão da revolução
renascentista, havia, fundamentalmente, duas espécies de argumento: os
argumentos da razão e os argumentos de autoridade. Havia vários tipos de
argumentos reunidos sob o letreiro de “autoridade”: argumentos de “costume,
opinião pública, antiguidade, testemunhos dos especialistas na sua própria
arte, o juízo dos sábios ou de muitos ou dos melhores”1
Portanto, quando em 1651 pascal esboçou uma introdução ao
seu tratado incompleto sobre o vácuo, começou por distinguir duas fontes de
conhecimento: razão e autoridade. Como é que sabemos os nomes dos reis de
França ao longo da história? Pela autoridade: o testemunho documental está
classificado sob a autoridade. Mas de repente e vindo do nada, pascal
apresenta-nos a experiência dos sentidos como complemento da razão (embora
alguns autores tenham classificado os sentidos no domínio da autoridade).
Portanto as decisões sobre a existência do vácuo devem ser tomadas não apelando
à autoridade mas com base na experiência dos sentidos e da razão. E onde se
encaixa o testemunho pessoal de pascal sobre o desfecho das suas experiências?
Não o diz. (…) O testemunho, como forma de autoridade, só parece relevante em
condições muito restritas. O facto de todos os seus argumentos estarem nos
argumentos finais resultantes do testemunho não lhe parece ter ocorrido.
Este esquema tradicional foi revolucionado por Hobbes. No
que lhe dizia respeito, havia só duas fontes de conhecimento: a razão, por um
lado, e a experiência, por outro, com a memória e o testemunho, sendo que todos
estes elementos estabeleciam as matérias de facto. No âmbito deste esquema, não
havia lugar para o hábito, a opinião pública, a antiguidade ou o juízo dos
sábios mas o local do testemunho era claro: como a memória, representava uma
forma substituta da experiência imediata dos sentidos. Hobbes não diria que
herdamos da autoridade o nosso conhecimento dos reis de França. O que teria
dito é que o retiramos de imediato do testemunho e, finalmente, da experiência
dos sentidos.
A palavra “facto” simbolizou este novo estatuto concedido ao
testemunho. (…) Assim, antes da invenção do facto, a o apelo ao testemunho era
visto como um apelo à autoridade (e até Digby, que escreveu em 1658, as
testemunhas visuais eram pensadas como autoridades): as testemunhas, digamos
assim eram vistas como testemunhas abonatórias e não testemunhas visuais.
Depois do facto, a testemunha visual torna-se uma espécie de testemunha virtual
(….) Com o testemunho separado da autoridade, o que antes era autoridade
torna-se, nas palavras de Glanvill, simplesmente “bagagem velha e inútil”.
Sprat foi ainda mais contundente: livrarem-se da tirania dos antigos implicava
apenas deitar fora aquilo que ele considerava “ o lixo”.
Depois da invenção do facto, o testemunho podia ser encarado
como uma espécie de desconfiança sistematizada. No fim, todos os sistemas de
conhecimento requerem que a pessoa deposite a sua confiança em alguém, em
alguma coisa ou em algum procedimento. Mas salientar o papel incontestável da
confiança na nova ciência é correr o risco de não reparar na grande parte do
iceberg que se encontra escondida debaixo de água. Boyle afirmava ser de
confiança por ter aprendido a desconfiar dos Della Portas deste mundo, esperando
ensinar os outros a lerem a sua obra com o mesmo espírito cético com que ele
lera o trabalho de Della Porta. A nova ciência, comparada com o que acontecera
antes, era baseada na desconfiança e não na confiança.
David Wootton, A invenção da ciência, Lx, Temas e
debates, 2017, p. 374,375,376
Texto para resumo Rodrigo Silva 11E
“Estamos, pois, constantemente em busca de uma teoria
verdadeira (uma teoria verdadeira e relevante), ainda que não possamos nunca
dar razões (razões positivas) para mostrar que encontrámos realmente a teoria
verdadeira que buscávamos. Ao mesmo tempo, podemos ter boas razões – isto é,
boas razões críticas – para pensar que aprendemos algo de importante: que
progredimos em direção à verdade. Pois podemos, primeiro, ter aprendido que uma
determinada teoria não é verdadeira segundo o estado presente da discussão
crítica; e, em segundo lugar, podemos ter encontrado algumas razões provisórias
para acreditar (sim, até para acreditar) que uma teoria nova se aproxima mais
da verdade que as suas antecessoras.
Para ser menos abstrato, vou dar um exemplo histórico.
As teorias de Einstein foram muito discutidas pelos
filósofos, mas poucos salientaram o importante facto de que Einstein não
acreditava que a relatividade especial fosse verdadeira: logo desde o início,
ele chamou a atenção para o facto de ela poder ser, quando muito, apenas uma
aproximação (já que era válida apenas para o movimento não-acelerado).
Encaminhou-se, assim, para uma aproximação maior, a relatividade geral. E, mais
uma vez, fez notar, que essa teoria também não podia ser verdadeira, mas sim somente
uma aproximação. De facto, buscou uma melhor aproximação durante quase 40 anos,
até à sua morte.(…)
Einstein buscou a verdade, e pensou ter razões -razões
críticas- que lhe indicavam que não a tinha encontrado. Ao mesmo tempo, deu,
ele e muitos outros, razões críticas que indicaram que tinha feito grandes
progressos na direção da verdade que as suas teorias resolviam problemas que as
respetivas antecessoras não eram capazes de resolver, e que se aproximavam mais
da verdade do que as suas rivais conhecidas.
Este exemplo pode apoiar a minha afirmação de que ao
substituir o problema da justificação pelo problema da crítica não precisamos
de abandonar nem a teoria clássica da verdade como correspondência com os
factos, nem a aceitação da verdade como um dos nossos padrões da crítica.
Outros valores são a relevância para os nossos problemas e o poder explicativo.
Por conseguinte, ainda que eu mantenha de que o que é mais
frequente é nós não encontrarmos a verdade, e não sabermos sequer quando é que
a encontrámos, retenho a ideia clássica de verdade absoluta ou objetiva como
ideia reguladora; quer isto dizer, como padrão em relação ao qual nos podemos
posicionar abaixo.”
Karl Popper, O realismo e o objetivo da ciência, Lx,
1992, Dom Quixote, pp 58,59
Texto para resumo Rafael Holdis
“É totalmente errado admitir que a objetividade da ciência
está dependente da objetividade do cientista. Assim como é totalmente errado
pensar que há maior objetividade, a nível individual, nas ciências da natureza,
do que nas ciências sociais. O cientista da natureza é tão parcial quanto
qualquer outro indivíduo e infelizmente – se não pertencer ao pequeno número
dos que estão continuamente a produzir novas ideias -, é conquistado
normalmente, de uma forma unilateral e parcial, pelas suas próprias ideias. Alguns
dos mais destacados físicos contemporâneos fundaram inclusivamente escolas que
opõem uma forte resistência a qualquer ideia nova.
Aquilo que se pode designar por objetividade científica
encontra-se única e exclusivamente na tradição crítica, na tradição que, mau
grado todas as resistências, permite muitas vezes criticar um dogma dominante.
Dito de outro modo, a objetividade da ciência não é uma questão individual dos
diversos cientistas, mas antes uma questão social da sua crítica recíproca, da
divisão de trabalho, amistoso-hostil, dos cientistas, da sua colaboração, mas
também das guerras entre si. Está, por conseguinte, dependente em parte de todo
o conjunto de circunstâncias, sociais e políticas, que tornam possível tal
crítica. (…)
Numa discussão crítica distinguem-se questões como: (1) a
questão da verdade de uma asserção; a questão da sua relevância, do seu
interesse e do seu significado relativamente aos problemas em causa. (2) A
questão da sua relevância, do seu interesse e do seu significado relativamente
a diversos problemas extra-científicos , como por exemplo o problema do bem
estar humano, ou ainda, o problema completamente distinto da defesa interna, de
uma política ofensiva nacional, do desenvolvimento industrial, ou do
enriquecimento pessoal.
É obviamente impossível dissociar esses interesses
extra-científicos da investigação científica; tal como é igualmente inviável,
dissocia-los da investigação quer na área das ciências da natureza – no campo
da física, por exemplo – quer na área das ciências sociais.
O que é possível e importante e que confere à ciência o seu
carácter específico não é a eliminação, mas antes a distinção entre os
interesses não inerentes à procura da verdade e o interesse puramente
científico pela verdade. No entanto, se bem que a verdade constitua o valor
científico essencial, não é o único. A relevância, o interesse e o significado
de uma asserção relativamente à formulação puramente científica de um problema
constituem igualmente valores científicos de primeira ordem, do mesmo modo que
o são a inventividade, a capacidade de esclarecimento, a simplicidade e a
precisão. (…)
…uma das tarefas da crítica e da discussão científicas é a
de lutar contra a confusão das esferas de valores e, em particular, eliminar as
valorações extra-científicas das questões relativas à verdade. (…) O cientista
objetivo e despido de valores não é o cientista ideal. Sem paixão nada avança,
e muito menos a ciência pura. A expressão “amor à verdade” não é uma mera
metáfora.
Portanto, não só a objetividade e o despojamento de valores
são praticamente inacessíveis ao cientista, como também essa objetividade e
esse despojamento são já em si valores. E sendo o despojamento de valores ele
mesmo um valor, a exigência desse despojamento constitui um paradoxo."
Karl Popper, Em busca de um mundo melhor, Lx, 1989, Ed.
Fragmentos, pp77,78,79
Texto para resumo Alexandre Feijão
Um tipo diferente de objeção à perspetiva simples do
método científico levanta-se pelo facto de esta se apoiar na indução, e não na
dedução. A indução e a dedução são dois tipos diferentes de argumentos. Um
argumento indutivo envolve uma generalização baseada num certo número de
observações específicas. Se eu observar um grande número de animais com pelo,
concluindo a partir das minhas observações que todos os animais com pelo são
vivíparos (isto é, dão à luz crias em vez de porem ovos), estaria a usar um argumento
indutivo. Um argumento dedutivo, por outro lado, parte
de certas
premissas, passando depois logicamente para uma
conclusão que se segue dessas premissas. Por exemplo, das premissas «Todas as
aves são animais» e «Os cisnes são aves» posso concluir que, portanto, todos os
cisnes são animais: este é um argumento dedutivo. Os argumentos dedutivos
preservam a verdade. Isto significa que, se as suas premissas
são verdadeiras, as suas conclusões têm de ser verdadeiras.
Entraríamos em contradição se afirmássemos as premissas e negássemos a
conclusão. Assim, se as premissas «Todas as aves são animais» e «Os cisnes são
aves» são ambas verdadeiras, tem de ser verdade que todos os cisnes são
animais. Ao invés, os argumentos indutivos com premissas verdadeiras podem ter
ou não conclusões verdadeiras. Mesmo que todas as observações de animais com
pelo por mim efetuadas tenham sido fidedignas e que todos os animais sejam de
facto vivíparos, e mesmo que tenha feito milhares de observações, pode vir a
descobrir-se que a minha conclusão indutiva de que todos os animais com pelo
são vivíparos é falsa. Na verdade, a existência do plácido ornitorrinco, um
tipo peculiar de animal com pelo que põe ovos, significa que se trata de uma
generalização falsa.
Apesar deste papel central desempenhado pela indução nas
nossas vidas, é um facto indesmentível que o princípio da indução não é
inteiramente fidedigno. Como já vimos, pode dar-nos uma conclusão falsa
relativamente à questão de saber se é verdade que todos os animais
com pelo são vivíparos. As suas conclusões não são
tão fidedignas quanto as conclusões resultantes de argumentos
dedutivos com premissas verdadeiras. Para ilustrar este aspeto, Bertrand
Russell, nos "Problemas da Filosofia", usou o exemplo de uma galinha
que acorda todas as manhãs pensando que, uma vez que foi alimentada no dia
anterior, sê-lo-á mais uma vez naquele dia. Um dia acorda e o camponês
torce-lhe o pescoço. A galinha estava a usar um argumento indutivo
baseado num grande número de observações. Estaremos a ser tão tolos quanto esta
galinha ao apoiar-nos tão fortemente na indução? Como poderemos justificar a
nossa fé na indução? Este é o chamado problema da indução, um problema
identificado por David Hume no seu "Tratado acerca do Conhecimento
Humano".
Como poderemos nós alguma vez justificar a nossa confiança num método de
argumentação tão pouco digno de confiança? Esta questão é particularmente
relevante para a filosofia da ciência porque, pelo menos na teoria simples
delineada acima, a indução desempenha um papel crucial no método
científico.
Nigel Walburton, Elementos básicos da Filosofia, Lisboa,
1998, Gradiva, 172,173
Texto para resumo Nuno Gonçalves 11E
As questões levantadas pela nossa sede de conhecimento provêm da nossa curiosidade acerca do mundo, do nosso desejo de investigar tudo o que é dado ao nosso aparelho sensorial. A famosa primeira frase da Metafísica de Aristóteles, "Pantes anthrõpoi tou aidenai orengotai physei." - "Todos os homens desejam por natureza saber." -quando traduzida literalmente diz: "Todos os homens desejam ver e ter visto (ou seja, conhecer)", e Aristóteles acrescenta imediatamente: "Uma indicação disto é o seu amor pelos sentidos; porque eles são amados por si sós, completamente à parte do seu uso".As questões levantadas pelo desejo de saber são em princípio todas respondíveis pela experiência e raciocínio de senso comum; estão expostas a erro e ilusão corrigidas da mesma maneira que as percepções e experiências sensoriais. Mesmo a obstinação quanto ao progresso da ciência moderna que continuamente se corrige a si própria deitando fora as respostas e reformulando as perguntas, não contradiz o objecto basilar da ciência - ver e conhecer o mundo como é dado aos sentidos - e o seu conceito de verdade é derivado da experiência de senso comum da evidência irrefutável, a qual elimina o erro e a ilusão. Mas as questões levantadas pelo pensar são tais que é da própria natureza da razão levantá-las - questões de sentido - são todas irrespondíveis pelo senso comum e pelo refinamento deste a que chamamos ciência.(...) O intelecto, o órgão do conhecimento e da cognição, é ainda deste mundo; nas palavras de Duns Eccoto, cai debaixo da influência da natureza, cadit sub natura, e transporta com ele todas as necessidades às quais está sujeito um ser vivo, dotado de órgãos dos sentidos e capacidade cerebral. O contrário de necessidade não é contingência ou acidente mas sim liberdade. (...)
Por outras palavras não existem verdade para além e
acima das verdades factuais; todas as verdades científicas são verdades
factuais, não excluindo aquelas que são geradas pela pura capacidade cerebral e
expressas em uma linguagem de signos especialmente concebida, e só as
declarações factuais são empiricamente verificáveis. Assim, a frase "Um
triângulo ri" não é não verdadeira mas sem sentido, ao passo que a velha
demonstração ontológica da existência de Deus, como a encontramos em Anselmo de
Cantuária, não é válida e neste sentido não é verdadeira, mas é plena de
sentido. "
Hannah Arendt, A vida do espírito, Vol.I,
Pensar,Instituto Piaget,2011, Lx
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Texto para resumo Matilde Matos 11E
– As ciências humanas podem produzir resultados
indiscutíveis?
Latour – O objetivo da ciência não é produzir verdades indiscutíveis, mas
discutíveis. Nem as ciências naturais e exatas produzem verdades indiscutíveis.
As ciências sociais realizam perfeitamente o trabalho de gerar verdades que
possam ser discutidas. Elas são como as demais ciências e em certos aspetos até
mais exigentes. A antropologia é muito mais exigente que muitos ramos da
psicologia, da economia e da geografia. O objetivo é produzir discussões
públicas normatizadas.
CS – Quando se pensa na ciência em relação à religião, à fé, parece pertinente.
A fé é indiscutível. O conhecimento racional, não. Mas como fazer quando uma
corrente das ciências sociais sustenta uma coisa e outra corrente sustenta o
contrário. Quem terá razão?
Latour – A “discutabilidade” dos argumentos faz parte do trabalho científico.
Isso vale para astrónomos, biólogos ou químicos. Talvez isso seja menos
verdadeiro na filosofia, que já é outra coisa. As ciências sociais aceitam
muito bem a discussão como parte do trabalho. Que Pierre Bourdieu discorde de
mim não impede que integremos o mesmo campo, a mesma disciplina, a sociologia.
CS – Jean Baudrillard, de quem estive próximo, ironizava um pouco dizendo que a
sociologia pode ser considerada uma espécie de astrologia, tão capaz como esta
de produzir alguma verdade. Li num texto seu que as ciências sociais se baseiam
num sistema de crenças .
Latour – A astrologia foi ciência durante muito tempo. Ela organizou o
conhecimento durante séculos. Não é destituída de interesse. As ciências
sociais, diferentemente da astrologia, devem produzir enunciados discutíveis,
como se diz, passiveis de refutação. Por outro lado, Baudrillard nunca foi um
modelo de cientificidade.
(...)
CS – Máquinas substituem cada vez mais pessoas em trabalhos de todos os tipos.
É possível fazer quase tudo nos aeroportos automaticamente e até se instalar
num hotel sem falar com pessoas. Na França, caixas de supermercado estão sendo
substituídas rapidamente por máquinas. Para que servirão os humanos no futuro?
Para algo melhor?
Latour – Para que um robôt seja automático é preciso muita gente por trás dele.
Insisto nisso. Trata-se de uma rede de sustentação entre o humano e a máquina.
Eliminar o trabalho de caixa de supermercado é uma benção, pois se trata de uma
atividade desagradável. Não?
CS – Em geral, as atividades não são muito agradáveis, mas criam empregos e
garantem o sustento das pessoas. Como sobreviverão então?
Latour – Fundamental é que as máquinas não vão substituir os seres humanos.
Isso é uma utopia completa. Mas as máquinas vão liberar as pessoas de muitas
tarefas. Por exemplo, de dirigir automóveis e de trabalhar como motorista de
táxi. O futuro dos humanos ou os empregos que terão é outro problema. Isso não
elimina o facto de que sempre haverá seres humanos por trás das máquinas. Os
economistas estão divididos quanto aos números, mais ou menos empregos. Certo é
que os novos empregos não são geralmente para as mesmas pessoas desempregadas
pela tecnologia. As transições são duras e penosas. Nos laboratórios japoneses,
por trás de cada robotzinho, há muitos engenheiros. Só o tempo nos dirá como as
coisas se resolverão.
Texto para resumo Matilde Nunes 11E
E é por isso que o método científico é o motor do progresso. Como sublinha Yuval Noah Harari em “Nexus”, foi a cooperação humana em larga escala que permitiu à Humanidade prosperar. Essa cooperação sempre implicou narrativas compartilhadas – sejam elas religiosas, económicas ou sociais.
O método científico é uma dessas narrativas. Ele estabelece um quadro partilhado para que diferentes sociedades e indivíduos possam confrontar ideias de forma racional e chegar a consensos baseados em provas. Essa característica torna-o um dos poucos espaços verdadeiramente universais.
Daí que o método científico seja o alicerce das sociedades abertas e plurais onde a verdade não é ditada pela força, mas conquistada pela evidência. Ele cria um terreno comum que transcende crenças individuais, permitindo que discordâncias sejam resolvidas pela razão. Esse processo fortalece a democracia, garantindo debates informados e decisões colectivas enraizadas na lógica e na transparência. No entanto, a inteligência artificial (IA) veio alterar este estado de coisas, abrindo espaço tanto para a desacreditação como para a substituição do método científico.
De facto a IA cria um espaço de dúvida radical, onde a confiança naquilo que tomávamos como certo é abalada. Fotografias, outrora prova de um acontecimento, são agora manipuladas com precisão. Um discurso gravado pode ser replicado por algoritmos que imitam a voz, os erros e até as emoções humanas. Mesmo transmissões ao vivo, símbolos máximos de autenticidade, podem ser suspeitas de manipulação. É uma fábrica de dúvidas.
Neste tempo, qualquer facto pode ser rotulado como falso. Se tudo pode ser falsificado, porquê aceitar o que desafia as nossas crenças? E se qualquer prova pode ser desacreditada, porque não escolher a que confirma os nossos preconceitos? Nos tempos de polarização, essa incerteza deixa de ser uma possibilidade intelectual e transforma-se numa arma política e cultural que descarta evidências com a desculpa de que são falsificadas – e só são falsificadas porque nos desconfortam.
E, no entanto, nunca pareceu tão fácil fazer a sociedade acreditar no que lhe é apresentado. Num ambiente saturado de informação e de estímulos incessantes, a capacidade de distinção entre o verdadeiro e o falso enfraquece. As pessoas acreditam porque o que vêem e ouvem confirma as suas expectativas ou alimenta as suas emoções. A IA não só tornou a manipulação mais sofisticada como acelerou a predisposição para aceitar narrativas pré-fabricadas, sem o filtro do questionamento crítico.
Adolfo Mesquita Nunes, O Fim da verdade, in Expresso,31 janeiro 2025
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Texto para resumo Mariana Seabra 11E
O que há de distintivo na ciência humana?
A ciência é um fenómeno biológico. A ciência surgiu do conhecimento pré-científico; é uma continuação bastante notável do conhecimento de senso comum, que por sua vez pode ser considerado uma continuação do conhecimento animal. (…) O que é que há de distintivo na ciência humana? Qual é a diferença-chave entre uma amiba e um grande cientista como Newton e Einstein? A resposta a esta pergunta é que a característica distintiva é a aplicação consciente do método crítico; (…) Só o método crítico explica o crescimento extraordinariamente rápido da forma científica de conhecimento, o extraordinário progresso da ciência. Todo o conhecimento pré-científico, animal ou humano, é dogmático; e a ciência começa com a invenção do método crítico não dogmático. (…)
A amiba evita o falibilismo: a sua expectativa faz parte dela própria e os portadores pré-científicos de uma expectativa ou de uma hipótese são frequentemente destruídos pela refutação da expectativa ou da hipótese. Todavia, Einstein tornou a sua hipótese objetiva. A hipótese é algo fora dele, e o cientista pode destruir a sua hipótese através da crítica, sem perecer com ela. Em ciência fazemos as nossas hipóteses morrer por nós.
Alcancei agora a minha própria hipótese, a teoria que tantos defensores da teoria tradicional da ciência rotularam de paradoxal. A minha principal tese é que aquilo que distingue a abordagem e o método científico da abordagem pré-científica é o método de tentativa de falibilismo. Cada tentativa de solução, cada teoria, é testada tão rigorosamente quanto nos é possível testá-la. Mas um exame rigoroso é sempre uma tentativa de descobrir as fraquezas existentes naquilo que está a ser examinado. O nosso teste às teorias é também uma tentativa de detetar as suas fraquezas. Testar uma teoria é, pois, uma tentativa de refutar ou falibilizar a teoria”
Karl Popper, A vida é aprendizagem, Lisboa, Edições 70, p. 20-26.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Texto para resumo Mafalda 11E
O cepticismo e o irracionalismo de Hume
Hume tem sido frequentemente acusado de cepticismo e de irracionalismo. Qual a razão de ser destas acusações? Em primeiro lugar, o facto de Hume ter mostrado que não existe uma justificação racional para as nossas inferências causais. Muitos filósofos pensam que Hume provou não haver razão para preferir a ciência à superstição. Nenhuma é racionalmente justificável e, por isso, não há diferenças assinaláveis entre as prescrições dos médicos e as mezinhas das bruxas. Em segundo lugar, ter substituído a justificação racional pelo hábito, uma espécie de instinto natural sobre o qual a razão não tem poder. Numa palavra, ter substituído a razão pelos instintos.
No entanto, Hume pensa que existem razões para preferir a ciência à superstição. As teorias da ciência são suportadas pela observação e pela experiência, pela uniformidade da natureza, ao contrário do que acontece com as crenças supersticiosas. Ele não considera, por isso, a sua filosofia uma forma de irracionalismo, mas sim daquilo a que chamamos hoje naturalismo, e não duvida de que estabelecemos relações causais e raciocínios indutivos e de que devemos confiar nas suas conclusões. Mas pensa que a causa para essa confiança não é a razão mas sim a natureza. Ele vê nesta necessidade natural a justificação adequada e suficiente das nossas crenças sobre o mundo. Embora não possamos justificar racionalmente essas crenças, a natureza fez-nos de modo a termos uma propensão para que certas experiências passadas nos levem inevitavelmente a ter certas crenças sobre o futuro. É tudo o que precisamos para confiarmos na verdade destas crenças e para demarcar a ciência da superstição.
Mas, para aqueles a quem a solução naturalista não satisfaz, o resultado último da filosofia de Hume foi ter mostrado que, ao contrário do que acreditamos, não temos conhecimento do mundo, seja no sentido de verdade indubitável seja no sentido de crença racionalmente justificada. Daí que o problema da indução esteja no centro do debate filosófico contemporâneo, em particular, em filosofia da ciência.
Álvaro Nunes, O empirismo de David Hume
Texto para resumo Lara 11E
David Hume foi bastante crítico em relação a Descartes nesta questão e avançou com a sua própria tese sobre o assunto. Diz Bertrand Russel sobre o escocês:
(...)
David Hume também refuta a ideia de um conhecimento universal, claro e distinto. Visto que dentro das limitações o nosso conhecimento é sempre incompleto, a realidade reduz-se aos fenómenos aos quais os nossos sentidos têm acesso, sendo que cada um pode ter sensações diferentes nessa experiência, abrindo-se espaço à subjectividade.
Carlos Alberto Videira
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Texto para Resumo Joana Antunes 11E
"O Problema da Indução
Um tipo diferente de objecção à perspectiva simples do método científico levanta-se pelo facto de esta se apoiar na indução e não na dedução. (...) Um argumento indutivo envolve uma generalização baseada num certo número de observações específicas. Se eu observar um grande número de animais com pêlo, concluindo a partir das minhas observações que todos os animais com pêlo são vivíparos (isto é, dão à luz crias em vez de porem ovos), estaria a usar um argumento indutivo. (...)
Estamos sempre a usar argumentos indutivos. É a indução que nos leva a esperar que o futuro seja semelhante ao passado. (...) As nossas vidas são todas baseadas no facto de a indução nos proporcionar previsões razoavelmente fidedignas acerca do nosso meio e acerca do resultado provável das nossas acções. Sem o princípio da indução, a nossa interacção com o meio seria completamente caótica: não teríamos bases para presumir que o futuro seria como o passado. (...) Toda a regularidade prevista no nosso meio estaria aberta a dúvida. (...)
Apesar deste papel central desempenhado pela indução nas nossas vidas, é um facto indesmentível que o princípio da indução não é inteiramente fidedigno. (...) Para ilustrar este aspecto, Bertrand Russel usou o exemplo de uma galinha que acorda todas as manhãs pensando que, uma vez que foi alimentada no dia anterior, sê-lo-á mais uma vez naquele dia. Um dia acorda e o camponês torce-lhe o pescoço. A galinha estava a usar um argumento indutivo baseado num grande número de observações. Estaremos a ser tão tolos quanto esta galinha, ao apoiarmo-nos tão fortemente na indução?"
Nigel Warburton (2007), Elementos Básicos da Filosofia. Lisboa: Gradiva, pp. 185-187.
Texto para resumo Madalena Gomes 11E
Outro argumento que Hume atacou foi o dos milagres. A maioria das religiões afirma que milagres acontecem. Pessoas são ressuscitadas dos mortos, andam sobre a água ou curam doenças de forma repentina; imagens começam a chorar, e a lista continua. Mas deveríamos acreditar que milagres acontecem só porque nos disseram que acontecem? Hume pensava que não. Ele era profundamente cético quanto a essa ideia. Se alguém nos diz que um homem recuperou por milagre de uma doença, o que isso significa? Para que algo fosse um milagre, pensava Hume, era preciso desafiar uma lei da natureza. Uma lei da natureza era algo do tipo
“Ninguém morre e depois retoma à vida”, “Estátuas jamais conversam” ou “Ninguém pode andar sobre a água”. Há uma quantidade enorme de evidências de que essas leis da natureza são válidas. Contudo, se alguém testemunha um milagre, por que motivo deveríamos acreditar nele? Pense no que diria se um amigo entrasse correndo agora pela sala e dissesse que viu alguém a caminhar sobre a água.
Hume acreditava que sempre havia explicações mais plausíveis sobre o que acontecia. Se o
seu amigo disse que viu alguém caminhando sobre a água, é sempre mais provável que ele esteja a ser enganado ou que tenha se equivocado do que ter testemunhado um milagre genuíno. (…)
Embora tenha criticado sistematicamente os argumentos usados pelos crentes religiosos,
Hume nunca declarou abertamente que era ateu. Talvez não tenha sido. As suas obras publicadas podem ser lidas como se afirmassem a existência de uma inteligência divina por trás de cada coisa no universo, só que jamais podemos dizer muito sobre as qualidades dessa inteligência divina. Os poderes da razão, quando usados logicamente, de fato não dizem muito sobre as qualidades que esse “Deus” deve ter. Baseados nisso, alguns filósofos pensam que ele eram agnóstico. Mas é provável que tenha sido ateu no final da vida, embora tivesse desistido de sê-lo bem antes disso. Quando estava a morrer e um amigo foi visitá-lo em Edimburgo no verão de 1776, Hume deixou claro que não teriam uma conversa de leito de morte. Longe disso. James Boswell, cristão, perguntou a Hume se ele estava preocupado com o que aconteceria depois da sua morte. Hume disse que não tinha nenhuma esperança de sobreviver à morte.
NIGEL WARBURTON, UMA BREVE HISTÓRIA DA FILOSOFIA
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Matriz para o teste 7 de janeiro de 2026
Este elemento de avaliação é composto por dois testes, cada um é avaliado de 0 a 20 valores.
Cada teste avalia competências diferentes:
- O primeiro teste avalia a competência do domínio
dos conceitos.
- A competência da Conceptualização que vale 40% na avaliação final.
- O segundo
teste destina-se a avaliar as competências de Problematização e
Argumentação que valem 30% na avaliação final.
1. ESTRUTURA E COTAÇÕES:
TESTE
1 - CONCEPTUALIZAR
Grupo I
10 perguntas
de escolha múltipla - 10x15= 150 Pontos
Grupo II
Esclarecer
conceitos:
2x25 = 50
Pontos
TOTAL - 200
Pontos
TESTE 2 -
ARGUMENTAR/PROBLEMATIZAR
As perguntas
colocadas implicam desenvolvimento/explicação/justificação
Questão 1 - 40
Questão 2 - 50
Questão 3 - 60
Questão 4 - 50
TOTAL = 200
Pontos
2. CONTEÚDOS
1. Análise
comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento.
1.1. O problema da origem do conhecimento: O Racionalismo – R. Descartes
1.2. A dúvida
metódica.
1.3.
Argumentos para duvidar.
1.4. As ideias verdadeiras/crenças básicas: cogito/dualismo corpo e alma e
Deus.
1.5. As
substâncias do mundo/substância extensa/pensante e divina.
1.6. As
ideias inatas, adventícias e factícias.
1.7. Deus como saída do solipsismo e garantia da verdade das ideias claras e
distintas.
1.8. As provas
da existência de Deus.
1.9.
Fundacionalismo racionalista. A autojustificação do cogito.
1.10. Críticas
à filosofia cartesiana.
2. O
Empirismo de D. Hume
2.1. Conteúdos da mente - Impressões e ideias
2.2. Questões de facto e relação de ideias
2.3. O
problema da possibilidade do conhecimento.
2.4. O problema da causalidade.
2.5. O
problema da indução.
2.4. O
Ceticismo moderado.
3. Comparação
entre estas duas teorias do conhecimento: O racionalismo e o empirismo
4. Análise
crítica ao racionalismo cartesiano e ao empirismo de Hume.
1. Analisar
corretamente os textos filosóficos.
3. Justificar
com pertinência e bons argumentos as suas posições.
4. Dominar
os argumentos dos filósofos com segurança.
5. Articular com
clareza as ideias expostas.
6. Formular de
forma clara os problemas.
7. Explicar corretamente
os problemas colocados pelos filósofos.
8. Saber problematizar
as teorias dadas colocando-lhe objeções,
9. Comentar corretamente as
frases.
10. Comparar as
teorias filosóficas.
11. Criticar as teorias com bons argumentos.
12. Esclarecer conceitos.
14. Escrever com correção.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
Texto para Resumo Tiago Silva 11A e Carla Ribeiro 11E
David Hume, Ensaio sobre o entendimento humano
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
Texto para resumo Eduardo 11E
Berkeley defendera que as ideias não residem em coisa alguma fora da mente; por sua vez, Hume insiste em que também nada há na mente onde elas possam residir. Não há qualquer impressão do eu, e portanto nenhuma ideia do eu; há apenas feixes de impressões. Esta conclusão é o fim do caminho que se inicia com o pressuposto, comum a todos os empiristas, de que os pensamentos são imagens e de que a relação existente entre quem pensa e os seus pensamentos é a mesma que a relação existente entre um olhar interior e uma galeria de quadros interior. Da mesma maneira que não podemos ver os nossos próprios olhos, também não podemos percecionar o nosso eu. Mas é um erro considerar que a imaginação é um sentido interior. A conceção de imagens mentais não é um tipo peculiar de sensação, é uma sensação comum fantasiada. A noção de um sentido interior conduz à ideia de um eu que é o sujeito da sensação interior. Na tradição de Locke e de Berkeley, o eu é o olho da visão interior, o ouvido da audição interior; ou, antes, é o que possui tanto o olho como o ouvido interiores. Hume mostrou que este sujeito interior era ilusório, mas não denunciou o erro subjacente, que conduziu os empiristas a abraçar o mito do eu interior. O verdadeiro caminho de saída do impasse consiste em rejeitar a identificação entre pensamento e imagem, e aceitar que um sujeito que pensa não é um sujeito solitário de perceção interior, mas um ser humano corpóreo que vive num domínio público. Hume orgulhava-se de ter feito pela psicologia aquilo que Newton fizera pela física. Propôs uma teoria (vácua) da associação de ideias, como contraparte da teoria da gravitação. Mas seria injusto acusar Hume da esterilidade da sua psicologia filosófica; ele herdou dos seus precursores do século XVII uma filosofia da mente empobrecida, e um dos seus méritos foi ter retirado, com considerável candura, as conclusões absurdas implícitas nos pressupostos empiristas. Mas aquilo que o faz merecer o lugar fundamental que ocupa na história da filosofia é a sua explicação da causalidade.
Texto para resumo Carolina 11E
Quando por conseguinte temos alguma suspeita de que um termo filosófico é empregue sem nenhum significado ou ideia (como é muito frequente), basta-nos perguntar sobre a impressão de que a ideia supostamente deriva. E se for impossível encontrar alguma, isto servirá para confirmar a nossa suspeita. Ao clarificar assim as ideias, podemos razoavelmente esperar que possam ser removidos todos os conflitos que possam surgir sobre a sua natureza e realidade.
As consequências destas linhas são estonteantes.
Consideremos a ideia de um eu durável, algo de substancial que persiste por detrás das muitas mudanças que experimentamos ao vivermos a vida. Suponho, por exemplo, que esta manhã sou essencialmente o mesmo eu que era quando me fui deitar a noite passada. Não só isso, acho também que sou o mesmo eu que era na juventude que desaproveitei. Acho que serei o mesmo eu enquanto viver. Sem dúvida, algumas coisas mudaram: cresci, ganhei algumas cicatrizes, o meu cabelo está a tornar-se um pouco grisalho. Contudo, parece haver algo de essencial, o meu verdadeiro eu, que persiste em todas estas alterações acidentais.
Se concordarmos com o princípio de Hume sobre a relação entre ideias e impressões, e se estivermos convencidos de que o seu método de remover ideias fictícias é o caminho certo, temos apenas que perguntar: «De que impressão é a minha ideia derivada?» Ao olhar para dentro de mim, afirma Hume, não encontro nada, excepto uma série de impressões fugazes – ódio, amor, calor, dor, imagens, sons, cheiros e coisas do género –, mas nada permanente, nada que persista em todas as alterações. Em suma, nenhuma impressão corresponde à nossa ideia de eu. A ideia presente na palavra «eu» pode juntar-se a «unicórnio»: «eu» é uma palavra que expressa uma ideia ilusória, uma ficção da imaginação.
Mas as coisas tornam-se muito piores. A abordagem que Hume faz da natureza do entendimento humano começa com uma distinção entre dois tipos de «objectos da razão humana»: relações de ideias e matérias de facto. As relações de ideias podem ser descobertas apenas pela razão. Podemos saber que os solteiros são homens não casados ou que duas vezes cinco é metade de vinte pensando apenas sobre as relações entre as ideias em causa. As matérias de facto, porém, podem apenas ser descobertas pela experiência. Podemos meditar o tempo que quisermos sobre a proposição de que o sol está a brilhar, mas só saberemos se ela é verdadeira olhando pela janela. Há outra diferença entre estes dois tipos de proposição. O contrário de uma matéria de facto é possível, mas se negarmos uma relação entre ideias verdadeira, incorremos numa contradição. O sol pode não ser brilhante, mas não se pode estar mais longe da verdade do que quando alegamos que os solteiros são casados.
James Garvey, The Twenty Greatest Philosophy Books (London, 2006, págs. 66-68). Trad. Maria Miguel Pires (rev. científica Logosferas).





