Teoria da arte como expressão
Insatisfeitos com a teoria da arte como imitação (ou representação), muitos filósofos e artistas
românticos do século XIX propuseram uma definição de arte que procurava libertar-se das
limitações da teoria anterior, ao mesmo tempo que deslocava para o artista, ou criador, a chave
da compreensão da arte. Trata-se da teoria da arte como expressão. Teoria que, ainda hoje, uma
enorme quantidade de pessoas aceita sem questionar. Segundo a teoria da expressão,
Uma obra é arte se, e só se, exprime sentimentos e emoções do artista.
Vejamos o que parece concorrer a favor dela:
• São muitos e eloquentes os testemunhos de artistas que reconhecem a importância de
certas emoções sem as quais as suas obras não teriam certamente existido. Mais do que
isso, se é verdade, como parece, que a arte provoca em nós determinadas emoções ou
sentimentos, então é porque tais sentimentos e emoções existiram no seu criador e
deram origem a tais obras.
• Também nos oferece, como a teoria anterior, um critério que permite, com algum rigor,
classificar objetos como obras de arte. Com a vantagem acrescida de classificar como
arte todas as obras que não imitam nada, o que acontece frequentemente na literatura
e quase sempre na música e na arte abstrata.
• Mais uma vez oferece um critério valorativo: uma obra é tanto melhor quanto melhor
conseguir exprimir os sentimentos do artista que a criou.
Uma teoria como esta manifesta-se frequentemente em juízos como “Este é um livro exemplar
em que o autor nos transmite o seu desespero perante uma vida sem sentido” ou como “O autor
do filme filma magistralmente os seus próprios traumas e obsessões”. (...)
Uma teoria como esta manifesta-se frequentemente em juízos como “Este é um livro exemplar
em que o autor nos transmite o seu desespero perante uma vida sem sentido” ou como “O autor
do filme filma magistralmente os seus próprios traumas e obsessões”.
Mas também ela se irá revelar uma teoria insatisfatória. As razões são semelhantes às que
apresentei contra a teoria da arte como imitação, pelo que tentarei aqui ser mais breve.
O primeiro ponto apresenta várias falhas. Desde logo, é também empiricamente refutado
porque há obras que não exprimem qualquer emoção ou sentimento. Podemos até admitir que
o emaranhado espesso de linhas coloridas do quadro de Pollock exprime algo ao deixar
registados na tela os seus gestos (é geralmente incluído na corrente artística conhecida como
expressionismo abstracto). Mas podemos dizer o mesmo de YKB 103 de Yves Klein e da maior
parte dos quadros de Mondrian ou de Vasarely? O grande compositor Richard Strauss, autor de
vários poemas sinfónicos como o célebre Assim Falava Zaratustra, afirmou que as suas obras
eram fruto de um trabalho paciente e minucioso no sentido de as aperfeiçoar, eliminando desse
modo os defeitos inerentes a qualquer produto emocional. E que dizer da chamada música
aleatória (música feita com o recurso a sons produzidos ao acaso)? Que emoções estarão a ser
expressas? Além disso, mesmo que uma obra de arte provoque certas emoções em nós, daí não
se segue que essas emoções tenham existido no seu autor. Se a ingestão de dez copos de vinho
seguidos provoca em mim o sentimento de euforia, daí não se segue que o vinicultor que
produziu o vinho estivesse eufórico. Trata-se, portanto, de uma inferência falaciosa. Tal como na
definição de arte como imitação, o mesmo se passa aqui, pois acaba por não se verificar a
condição necessária segundo a qual todas as obras de arte exprimem emoções. É, assim, uma
má definição.
A deficiência em relação ao critério de classificação é praticamente a mesma apontada à teoria
da imitação. A única diferença é que, neste caso, uma maior quantidade de objetos pode ser
classificados como arte. Mas nem todas as obras de arte são, de facto, classificadas como tal.
Aires Almeida, https://criticanarede.com/aalmeidateoriasessencialistasdaarte.html